quinta-feira, 5 de novembro de 2009

FÓRUM DAS LETRAS DE OURO PRETO

Estive em Ouro Preto. Mas parece que ainda estou em Ouro Preto. Ouro Preto é um lugar do qual a gente não sai mais nunca. A energia barroca de suas igrejas, edificações e monumentos têm uma força que conduz cada pessoa para dentro da beleza. Sua geografia cheia de ladeiras e montanhas faz com que o caminhante valorize cada passo que dá. Mas como vale a pena andar pelas ruas íngremes de Ouro Preto, e reparar para sua gente hospitaleira e sentir pulsarem uníssono os mais de 27 mil corações de estudantes. Agora, mais do que nunca, entendo as palavras do menestrel do cancioneiro popular Milton Nascimento – entidade que canta com a boca de Deus.
Mas fui para Ouro Preto para participar do Fórum das Letras. Para mediar uma mesa composta por célebres jornalistas brasileiros, que também são escritores renomados: Edney Silvestre, apresentador do programa Espaço Aberto Literatura, na Globo News; Leda Nagle, apresentadora do programa Sem Censura, na TV Brasil; e Carlos Herculano, repórter do EM Cultura, do jornal Estado de Minas. O tema do colóquio foi A arte de entrevistar um escritor. O evento, que aconteceu no primeiro teatro brasileiro, a Casa da Ópera, no dia 31 de outubro, às 11 horas, foi um sucesso. O teatro estava lotado por um público formado predominantemente por estudantes universitários. Comecei recitando o poema “Epígrafe” do poeta Ruy Espinheira Filho. Mal terminei de ler o poema, o Edney foi logo pedindo a folha com o poema para ele. A Leda Nagle foi ovacionada pela platéia. Infelizmente, o transporte do Carlos Herculano Lopes atrasou bastante, quando ele chegou o evento estava próximo de terminar, então ele não quis subir ao palco. Mas depois saímos para almoçar e parecia que já nos conhecíamos há muito tempo, parecia, mesmo, que éramos irmãos. E de fato a fraternidade ficou selada, jurada e sacramentada.
Não posso deixar de lembrar do carinho de João Luiz, reitor da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), e de sua esposa Sílvia, que me recepcionaram tão gentilmente, com um jantar na noite de minha chegada, na sexta feira, dia 30. Assim como o prefeito de Ouro Preto, Angelo Oswaldo, uma figura sempre presente. De Guiomar de Grammont, organizadora do Fórum, uma pessoa que se dividiu em mil para asseverar o sucesso da sua empreitada literária. Tive a alegria também de conhecer escritores maravilhosos, pessoas do meu tempo que dedicam suas vidas à arte das letras, gente como Wilmar Silva, Ronaldo Werneck, Rodrigo Garcia Lopes e Guilherme Fiúza. Na noite do dia 1º de novembro, véspera de minha partida, chegou o casal Aleilton Fonseca e Rosana Patrício Ribeiro, queridos amigos. Estivemos juntos no jantar de confraternização que contou com a presença da maioria dos convidados do Fórum das Letras, onde conheci o poeta Guilherme Mansur, José Miguel Wisnik, Mary Del Priore e tantas outras pessoas. Confesso que foi um regozijo ter ido a Ouro Preto e ter participado do Fórum das Letras.
JIVM

Fórum das Letras – ano 5 – de 29 de outubro a 2 de novembro de 2009

JIVM, Edney Silvestre e Leda Nagle. Foto: Carol Reis

JIVM e Edney Silvestre. Foto: Dany Starling

Leda Nagle e JIVM

Carlos Herculano Lopes, JIVM e Ronaldo Werneck

JIVM e Edney Silvestre – Pré-lançamento do primeiro romance
de Edney Silvestre,
Se eu fechar os olhos agora

José Inácio Vieira de Melo fotografado por Carol Reis,
do jornal Estado de Minas


Paulo Brant (secretário de cultura do estado de Minas Gerais), JIVM
e Guiomar de Grammont (Organizadora do Fórum das Letras)

Angelo Oswaldo (prefeito de Ouro Preto) e JIVM

Carlos Herculano Lopes, Wilmar Silva, Rodrigo Garcia Lopes e JIVM

domingo, 1 de novembro de 2009

SANGUE NOVO - EMMANUEL MIRDAD



SANGUE NO OLHO – Filho de pai poeta e mãe musicista, EMMANUEL MIRDAD é um soteropolitano libriano espinhento de 1980. Formado em Jornalismo pela Facom - UFBA, trabalha no Núcleo de Produção Musical da Educadora FM, produzindo os programas Especial das Seis e Especial de Sábado, além de outras atividades. É produtor cultural desde 2004, e trabalha na elaboração e execução de projetos. É o criador do Prêmio Bahia de Todos os Rocks. Compõe desde 1997 e já produziu seis álbuns, com suas canções e experimentações, mas atualmente está afastado da música. Mantém o blog El Mirdad - Farpas e Psicodelia (www.elmirdad.blogspot.com), onde divulga sua produção e trabalhos de outros artistas. Possui dois livros ainda não publicados, Deserto Poema, disponível em posts no blog, e Abrupta Sede. Mirdad é um poeta sangue no olho. Atua em vários ramos das artes, como já podemos ver, e acredita que para essa atuação a internet é indispensável, visto ser um espaço que democratiza a informação, assim como proporciona uma rápida e eficiente divulgação de qualquer produto. Mirdad afirma que “Pra um autor iniciante, a ausência de um blog ativo é quase uma implacável rota às gavetas.” Vamos, então, à entrevista com Emmanuel Mirdad, o poeta que quer “tacar fogo nos elogios vazios que abestalham os blogs literários”

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Você é envolvido com a cena rock de Salvador e escreve prosa e poesia, além de ser filho de um poeta inédito. Dentro dessa sua movimentação, qual o espaço que a poesia ocupa? Ela é algo indispensável para você?

EMMANUEL MIRDAD – Como produtor cultural e articulador, cada vez mais estou envolvido em diversos projetos e trabalhos, e isso tem um reflexo improdutivo na rotina do meu fazer artístico. Hoje confesso que a poesia ocupa o espaço de uma caixa de sapato chique, mas já gasto, entulhada no quarto dos fundos; não há o uso rotineiro, só nos grandes eventos, esporádicos. Mas a caixa continua lá, guardando o bem a postos pra ser usado, e você sabe e conta com isso. Então, a poesia continua aqui, como sempre estará, prestes a ser concretada no computador, nas brechas dessa correria violenta de hoje; eu sei e conto com isso. E essa preciosa e rara pausa para poetar é o grande evento! Indispensável! Antes de toda e qualquer configuração, eu sou poeta.

JIVM – E seu pai, qual a influência que exerce nessas suas práticas, sobretudo na de poeta. E quais as suas leituras referenciais? E o que está lendo no momento?

EM – Meu pai tem 78 anos e é uma figuraça ímpar, filósofo, poeta de gaveta e desmistificador das ‘bilhares’ ilusões humanas. Cataloguei sua obra e compus um CD Poema com um fragmento micro desta, chamado Ilusionador, que apresentei como TCC no curso de Jornalismo da UFBA em 2006. Esse contato próximo com seus ‘filopoemas’ atiçou minha acidez consideravelmente. O deboche presente em suas risadas fartas do dia a dia, aliado a um laço de quase 30 anos de amizade fraternal e intenso aprendizado, enraizaram-me conceitos e valores que são hoje o pilar base de meu olhar facão.
Tenho uma dívida enorme com a literatura; há muito que ler ainda. Faltam-me obras referenciais, e você, caro Inácio, sabe muito bem que comecei há pouco a desanuviar minha ignorância imbecil, graças ao Pés Quentes nas Noites Frias, de Mayrant Gallo, que você me deu de presente quando éramos colegas na Facom. Portanto, diante minha humilde coleção, cito Clarice Lispector, Nelson Rodrigues e Mayrant Gallo. No momento, acabei de ler o interessante A Dama do Velho Chico, de Carlos Barbosa (recomendo!), e estou a decifrar Dostoievski e o tomo Memórias da Casa dos Mortos.

JIVM – Você tem um blog, onde disponibiliza seus CDs e seus livros. A publicação desse material não é algo que lhe interessa? Se há interesse, quais são os empecilhos?

EM – Criei o blog El Mirdad - Farpas e Psicodelia essencialmente pra disponibilizar minha obra artística. Algum tempo depois, passei a criar e publicar várias seções, sempre divulgando a obra de outros artistas, focado na música e literatura, além de expor minhas opiniões e memórias. Ainda bem que mudei o intento! Reconheci meu limite de talento e abandonei a música como artista e compositor, mas uma parte da obra está disponível pra download no blog, meramente como um ilustrativo de peças que compõem o mosaico de mim.
Agora em relação à literatura, publiquei na íntegra, em 88 posts, o livro Deserto Poema, ainda inédito em papel e arquivo digital, e alguns fragmentos dos 25 contos que compõem o livro Abrupta Sede, também inédito. Tenho total interesse em publicá-los, e tento fazer isso desde o início deste ano de 2009. E hoje, em que pé está o processo? Continuo aguardando a colaboração de um amigo, que ficou de revisar os livros e até hoje não terminou. A verba que tenho, do meu bolso, só vai dar pra pagar, apertado, a impressão de 500 exemplares cada.

JIVM – Falemos dos diálogos. Qual o diálogo da sua poesia com a tecnologia? Em que medida se dá o diálogo da sua poesia com a música que você faz? E com a sua prosa? Como distingue a poesia dessas outras formas, dentro da sua criação?

EM – Para minha poesia, a tecnologia é questão de suporte. Hoje já consigo escrever, e acho até melhor, do onírico diretamente ao digital. Antes, só no papel e caneta, pra depois transcrever e arquivar; trabalho extra e entulho. Agora é muito mais prático e limpo, sem as canetadas e borrões inevitáveis da edição. Além disso, há o blog, espaço democrático em que experimento minhas criaturas ao crivo gratuito de qualquer um; interajo, divulgo e expando as possibilidades de fruição da obra. Pra um autor iniciante, a ausência de um blog ativo é quase uma implacável rota às gavetas.
Em dez anos, compus várias canções (a maioria descartável), com o cuidado (ou a pretensão) constante de não criar uma letra 'xibunga' só pra ressaltar o ritmo. Por muitas vezes, poemas se tornaram letras de canções e vice-versa (no livro Deserto Poema há exemplos). De fato foi um diálogo íntimo e constante, exemplificado no nome da banda que toquei por seis anos: The Orange Poem. Era som e poema. Uma interação que, de certo modo, se assemelha à prosa; há contos no Abrupta que foram desenvolvidos a partir de poemas ferrões do Deserto. E esse murro no estômago é o que une as duas formas que, em mim, brotam do universo árido de um areal de navalhas. A música é anseio. A prosa é laboratório. A poesia sou eu.

JIVM – Você é um poeta incendiário ou um poeta das águas?

EM – Incendiário. Sangue no olho.

JIVM – O que é que renasce das cinzas de seus versos queimados?

EM – Espero que não renasça nada quando botarem ou eu botar fogo em tudo; temos que escapar, mesmo que o relógio advirta que não.

JIVM – E depois o que pretende aquecer com seus versos de fogo? E o que mais?

EM – Eu não quero aquecer nada. Quero é machucar, tacar fogo, fustigar, maltratar os elogios vazios que tanto abestalham os blogs ‘literários’ por aí.
E mais: você, que por acaso leu esta baboseira aqui, pare, por algo que ainda seja sagrado, de sair comentando nos blogs badalados por aí a praga do ‘lindo!’ à toa. É medíocre, imbecil, carente e vaidoso. E o autor vai ‘cagar e andar’ pra você.

sábado, 31 de outubro de 2009

TRÊS POEMAS DE EMMANUEL MIRDAD


Ilustrações: Txhelo Castilho
















EVOLUÇÃO



primeiro foi a rebeldia
depois o cansaço
por último a fuga
e agora os cacos



GADO BOM É NO MEU PRATO


para essa poesia
dos homens de barro
ordeno que chova
derreta e desfigure
todos os encatamentos baratos
de uma atmosfera farsante

o urbano impera
e há tempos digeriu a inércia
de quem saúda o passado transposto

já era, já foi, acabou
e que as mãos cerrem as páginas inúteis
que emporcalham as prateleiras quase ausentes

eu escrevo pra mim
e enterro você, que nunca me lerá



MARIA CEGUETA


É difícil explicar a alguém
Como chegar a um determinado lugar
Se a pessoa estiver pilotando
Um animal assombroso
Aspirador de pó
Cão que rói tudo

Mesmo assim
Não faça confidências aos filhos
Nem lhes peça um apoio
Que nunca serão capazes de dar

Estão na mesma barca aportada
Entupidos do ópio comum
Às frustrações acumuladas
De todas as fracassadas gerações

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

RUY ESPINHEIRA FILHO FAZ A TRAVESSIA DAS PALAVRAS SOB O CÉU DE JEQUIÉ

No próximo sábado, 31 de outubro, derradeiro dia do mês, o poeta Ruy Espinheira Filho retorna a Jequié para participar do projeto Travessia das Palavras. Ruy vai trazer os ares de sua boa poesia e notícias do novo livro Sob o céu de Samarcanda, a ser publicado ainda este ano pela Bertrand Brasil em parceria com a Fundação Biblioteca Nacional, do qual enviou-nos um poema: Canção do efêmero com passarinho e brisa.


Além da presença e poesia de Ruy, a noite vai contar contar com a participação especial do grupo musical de Salvador, Caboco Capiroba, formado pelos músicos Clara, Moisés, Mário, filho de Ruy, e João, filho do saudoso sociólogo Gey Espinheira, irmão do poeta. O grupo Caboco Capiroba, se vale dos ritmos da música nordestina, com destaque para o Baião, o Xote e o Coco. Naturalmente influenciado por Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Xangai e Elomar, derrama em suas letras a temática tradicional do sertão e da condição humana. Os temas são enriquecidos com a força da cultura do recôncavo.
O evento vai acontecer no Palácio das Artes, às 19 h 30 min, entrada franca. Como estarei participando de outro evento (Fórum das Letras de Ouro Preto), em outro estado (Minas Gerais), no mesmo dia, não poderei estar presente para acompanhar e apreciar essa noite, que sei será de alta poesia e de encanto. Mas Leonam Oliveira, presidente da Academia de Letras de Jequié, estará ciceroneando o poeta e os convidados, com a sua costumeira elegância.
Fiquemos, por enquanto, com um pouquinho da paisagem de Sob o céu de Samarcanda:


CANÇÃO DO EFÊMERO
COM PASSARINHO E BRISA



É tudo mesmo bem pouco,
pois só há pouco me vi
chegando aqui e encontrando
o que nunca compreendi
— tanto que, perplexo, tanto
duvidei de estar aqui.
E nunca acreditaria
se não fosse um passarinho
afirmando: bem-te-vi!

Ainda escuto o seu trinado
garantindo-me o existir.
Mas precária garantia,
como aprendi com a brisa
de que se compõe o dia:
se o tempo passar um pouco,
nada mais que um pouco, logo
não estarei mais aqui.


RUY ESPINHEIRA FILHO

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

JIVM NO FÓRUM DAS LETRAS DE OURO PRETO

Tema: A arte de entrevistar um escritor

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

TRÊS POEMAS DE CARLOS MOISÉS SOGLIA DE MELO


Hoje, meu filho mais velho, Carlos Moisés, está completando nove anos. Uma grande alegria para nós que o amamos. Moisés é uma figura radiante, ao mesmo tempo disperso e introspectivo. Adora cavalgar pelos campos de tardezinha, viajando com seus heróis, os deuses das mitologias: Hades e Zeus, Odin e Thor, Osíris e Anúbis, Cronos e Urano. Apenas Aquiles, entre os mortais. De suas viagens mitológicas retorna, quase sempre, com um poema, como os três abaixo.

Foto: Ricardo Prado


IDADE GREGA


Os minotauros têm machados
de pés de cavalos.
Quando eles colocam
os machados diante do Sol
nascem fogueiras
nas mãos dos centauros.



IDADE MILITAR


Os militares
com armas estranhas,
roupas estranhas.

Nem a pele é conhecida.



MITO DE SÍSIFO


O homem pelado segurando a pedra
com sua incrível força de pedra.

A sua força é tão inútil
quanto a pedra que carrega.

JIVM - BARCO, PARA CARLOS MOISÉS



Parabéns, Moisés. 9 x 10 para você. E mais uns 10 anos de lucro. Saúde e Sucesso. Paz e Poesia. Com amor,
JIVM

terça-feira, 20 de outubro de 2009

RETRATOS POÉTICOS DO BRASIL 2010


Organizei, recentemente, para a Escrituras Editora, de São Paulo, a agenda Retratos Poéticos do Brasil 2010, cuja temática é a poesia da Bahia. Para tanto, selecionei 46 poetas da Bahia, desde Gregório de Mattos e Castro Alves, passando por Myriam Fraga e Florisvaldo Mattos, até os jovens Cleberton Santos e Nívia Maria Vasconcellos. Para mim foi uma grande responsabilidade e, ao mesmo tempo, uma maior satisfação. A agenda ficou muito bonita. É um belo presente de fim de ano. Está disponível nas livrarias, nos sites e portais. Logo abaixo está o texto que fiz para a apresentação da agenda.


A POESIA PRIMORDIAL DA BAHIA

A poesia da Bahia está ligada às raízes da poesia brasileira. No século XVII, quando ainda vigorava o Barroco na Europa, surgem os primeiros poetas brasileiros, os baianos Manuel Botelho de Oliveira, primeiro brasileiro a editar um livro em versos, e Gregório de Matos e Guerra, com sua poesia lírico-satírico-religiosa. Gregório era um espírito irrequieto que a todos fustigava. Sua verve satírica e sua língua afiada conferiram-lhe a alcunha de O Boca do Inferno.
Não menos importante para o universo poético brasileiro foi Castro Alves, jovem poeta de versos fulgurantes que até hoje são recitados nas praças de Salvador e arrebatam multidões. Situado historicamente no Romantismo, no século XIX, Castro Alves dá nova dimensão a esse estilo de época ao enfatizar a poesia de temática social. Por conta do combate que empreendeu contra a escravidão, ficou conhecido como Poeta dos Escravos.
Do final do século XIX à primeira metade do século XX, simbolistas e parnasianos fizeram a feição poética da província. O Modernismo chegou à Bahia ao menos uma década depois do rebuliço de 1922, tendo em Godofredo Filho um dos seus precursores.
Ultrapassada a primeira metade do século XX, a poesia baiana passou a respirar novos ares com a Geração Mapa, da qual fazem parte poetas como Adelmo Oliveira, Affonso Manta, Fernando da Rocha Peres, Florisvaldo Mattos, João Carlos Teixeira Gomes e Myriam Fraga, sob a liderança do cineasta Glauber Rocha. A Geração Mapa foi englobada pela Geração 60, que até hoje exerce uma influência sobre a produção artística baiana. A segunda leva de poetas da Geração 60 traz nomes como Antonio Brasileiro, Ildásio Tavares, Maria da Conceição Paranhos e Ruy Espinheira Filho.
Em seguida, configura-se a Geração 80, a partir da Coleção dos Novos, que revelou autores como Aleilton Fonseca e Roberval Pereyr. Simultaneamente, surge o movimento Poetas na Praça, que cultivava a tradição da oralidade. Seus representantes recitavam pelas praças e becos da velha São Salvador, entre os quais se destacaram Antonio Short, Douglas de Almeida, Geraldo Maia e Walter César.
A década de 1990 trouxe para o cenário outras vozes: Elizeu Moreira Paranaguá, do Círculo de Estudo Pensamento e Ação (CEPA); Goulart Gomes, do Grupo Pórtico e do Movimento Poetrix; assim como Luís Antonio Cajazeira Ramos e Mayrant Gallo que traçaram, cada qual à sua maneira, um caminho poético bem particular.
E a poesia que se faz hoje na Bahia? É a mais diversificada possível e busca alcançar vários espaços. Está presente nas praças, com os continuadores do movimento Poetas na Praça; nos grupos que saíram das universidades, como o Grupo Hera, de Feira de Santana; está presente nos prêmios da Fundação Casa de Jorge Amado e da Academia de Letras da Bahia; no Concurso Público de Poesia Falada da Câmara Municipal de Salvador – Troféu Castro Alves; nas páginas das revistas Iararana e Hera; está no Pouso da Palavra, em Cachoeira, no Recôncavo; nos projetos que se espraiam por todo o Estado – nas bibliotecas, auditórios e bares – como Com a Palavra o Escritor e Poesia na Boca da Noite, em Salvador; Uma Prosa Sobre Versos, em Maracás, no Vale do Jiquiriçá; ou ainda no Travessia das Palavras, em Jequié.
A poesia contemporânea da Bahia é pulsante e vivaz. Surge em cada rincão que compõe sua geografia e busca levar sua voz primordial, que conjuga tradição e vanguarda, para todas as partes.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
Poeta, jornalista e produtor cultural

terça-feira, 13 de outubro de 2009

OS 60 ANOS DO RAIMUNDO FAGNER


Hoje, o cantor e compositor cearense Raimundo Fagner completa 60 anos. O Fagner trouxe a poesia para a minha vida. Isso já faz tempo, em 1980, quando eu tinha apenas 12 anos. Estava acampando em um lugar chamado Serra das Mãos, em Alagoas. Era um mês de dezembro, eu tomava chá a beira de uma fogueira com mais uns quatro amigos. De repente, o mais velho do grupo, que devia ter uns 18 anos, ligou um radinho, sintonizou-o na rádio Novo Nordeste, de Arapiraca, e a voz argêntea do Fagner bailou nos ares agrestes, entoando um poema do Patativa do Assaré, depois cantou uma canção de John Lennon, depois uma do Zé Ramalho. Fui envolvido de tal maneira, que um novo mundo se descortinava para mim. O canto do Raimundo despertava em mim o sentido da poesia. Melhor dizendo, despertava todos os meus sentidos para a poesia.
Agradeço-lhe, profundamente, por tudo isso. Por sua música ter marcado minha adolescência e por se fazer presente até os dias de hoje, cantando versos de Cecília Meireles, Patativa do Assaré, Ferreira Gullar, Florbela Espanca, Federico Garcia Lorca, Rafael Alberti, Antonio Brandão, Mário de Andrade, Francisco Carvalho e tantos outros.
Presto minha homenagem com um poema de meu segundo livro, Decifração de abismos (2002), que é dedicado ao Fagner. O poema chama-se Saudação e foi escolhido por Marco Lucchesi para a antologia Roteiro da Poesia Brasileira – Anos 2000, recém-lançada pela editora Global. Para o Fagner, os meus parabéns!
JIVM



SAUDAÇÃO
Para Raimundo Fagner


Cândido, o tempo não alisa,
os sulcos são deixados por seu arado.
No meu solo já senti o sabor da lavoura,
sabor que, por vezes, é dissabor.

Uma coisa é certa, Cândido, a poesia é salvação.
Tu foste o pastor do cântico do despertar,
foste o muezim que, do alto da mesquita,
anunciou a graça maior da poesia.

Imagine, Cândido, este poeta dos Sertões
só percebeu o escancarar da boca da estrada,
nos caminhos, da Estrada de Santana,
escancarados de tua boca.

Cândido, tange a tua voz,
sem delírio, viver não vale a pena.
Ah Cândido, pássaro extravagante,
berra o epigrama da minha adolescência:

“O vento voa,
a noite toda se atordoa,
a folha cai.”


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

VERÔNICA DE VATE - ADRIANO EYSEN


foto Ricardo Prado

ADRIANO EYSEN Rego (1976), poeta, contista e crítico literário, é natural de Salvador. Licenciado em Letras Vernáculas pela UEFS, Especialista em Estudos Literários pela UNEB, professor de Literatura Portuguesa e Brasileira da UNEB – Campus XXII – Euclides da Cunha, Mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela UEFS e membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. O autor publicou os livros: Suspiros das existências (1999 – poemas); Crepúsculo das Almas (2000 – poemas pelo MAC – Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana); Diário de um Louco (2001 – contos - MAC); Sopros (2002 – poemas - MAC) e Imagens do Sertão na poética de Castro Alves (2005/06 – ensaio - UESB). Tem artigos publicados em revistas, a exemplo de Outros Sertões e Iararana, e jornais como A Tarde Cultural e Tribuna Feirense. Participou dos projetos Malungos (Salvador - 2005); Porto da Poesia na Bienal do Livro (Salvador – 2005); Poesia na Boca da Noite (Salvador); Caruru dos Sete Poetas (Cachoeira - 2006) e coordenou Café Literário no Congresso de Educação de Vitória da Conquista-BA (2005 – 2006).
*
Adriano Eysen vai se apresentar, depois de amanhã, 10 de outubro, no projeto Uma Prosa Sobre Versos, na cidade de Maracás, Bahia. Edmar Vieira, diretor de cultura do município é o coordenador do evento. O projeto vai contar também com a participação especial do Grupo Concriz - uma turma da boa da cidade de Maracás, composta por 25 jovens recitadores, dirigida pelo trio de poetas Edmar Vieira, Marcelo Nascimento e Vitor Nascimento Sá que vão recitar todos os poemas do livro Cicatrizes do silêncio.


INFÂNCIA


As borboletas trazem o hálito da manhã
e nas suas asas repousa
a leveza da minha infância.

No menino de ontem
só a antiga fotografia
das bolas de gude no quintal

e num sossego, os olhos de minha mãe
carregam o azul do céu
único como as borboletas

que dormem no sono
do menino
habitante desses versos.


ADRIANO EYSEN

ADRIANO EYSEN - ELEGIA ÀS MENINAS MEIGAS



ELEGIA ÀS MENINAS MEIGAS


Cantemos as mulheres
que trazem na noite
o aroma do sexo
e uma tristeza que a habita a lua.

São elas fidalgas
que guardam o pecado
por trás dos vestidos
envelhecidos na memória.

Cantemos suas tramas
que se findam nas camas
numa réstia de madrugada.

Lá vão elas, meninas meigas
carregando em seus corpos
a lucidez dos deuses
que as amam.


ADRIANO EYSEN

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

BABEL


Ilustração: Ana Neves Guerreiro


BABEL


Distantes do passado tetrassílabo,
jônicos e gaélicos guerreiros
passaram por aqui – passaram pássaros.

O passo temperado desse sonho
traz nas mãos cartas celtas de Babel
a convidar à noite dos diálogos.

(Todo canto termina-aproxima:
imagem indagada entre símbolos).


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO


Poema do livro inédito Roseiral, um dos vencedores do edital da Fundação Pedro Calmon, da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

SANGUE NOVO - RAIÇA BOMFIM



A POESIA É O RASTO E O LASTRO – RAIÇA BOMFIM nasceu no dia 19 de março de 1986, dia de São José, em Vitória da Conquista, Bahia, cidade de minha saudade e afeto. Com menos de um ano foi morar em Salvador. Passou quatro anos e meio da infância morando com os pais em Barcelona, onde nasceu seu irmão caçula. Foi na Espanha que primeiro se alfabetizou e ficou para sempre encantada com as formas de Picasso e as cores de Miró. Seu primeiro curso de graduação foi em Produção Cultural na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Acabou por abandonar o curso ao meio para fazer Faculdade de Teatro, também UFBA. Hoje cursa o último semestre de Interpretação Teatral, com o espetáculo Pinóquio e participa de um grupo de teatro chamado Alvenaria de Teatro que estréia agora em outubro com o espetáculo As Bacantes. Raiça afirma que sua profissão é a de atriz e que a poesia e o canto são sua yoga. Vamos, então, fazer uma caminhada, como quem faz uma meditação, pelo mundo da jovem e bela Raiça Bomfim. Vamos seguir seus passos para percebermos sua poética, pois para ela a poesia é o rasto e o lastro.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Você acha que vale a pena ser poeta, tendo em vista que “a poesia é uma ribalta entregue às moscas”, como lucidamente afirma o poeta cearense Francisco Carvalho?

RAIÇA BOMFIM – Acho que vale a pena, o papel e o verso. Nossa sociedade dá pouco valor ao que lhe é essencial: a arte, a natureza, o amor... Nem por isso, o que é essencial deixa de sê-lo. A poesia é um ofício humilde, de auscultar destroços e inutilidades (viva Barros!). Ninguém precisa dela pra viver e pouca gente consegue viver dela. No entanto, para os atentos e vivos, a poesia é inevitável.

JIVM – “Não sou alegre nem sou triste/ sou poeta”, dizem os versos da grande poeta Cecília Meireles. A sua poesia é mais alegre ou mais triste? Você é poeta ou poetisa?

RB – Acho que minha poesia não é nem alegre nem triste. Assim como eu também não sou nem uma coisa nem outra. Descrevo com vigor e curiosidade meu trajeto de vivência. A poesia é o rasto e o lastro. É o que é visto, sentido e dito: fato. É inteira, necessária e sem partido. Nem alegre nem triste, poesia.
Quanto a mim, se algo disto eu for, sou poeta. E sem frescuras.

JIVM – Você acredita na existência de uma poesia feminina e, por extensão, de uma literatura feminina? O que você acha das escritoras feministas? É mais difícil para uma mulher ser reconhecida como escritora ou a tranqueira é comum para todos?

RB – Acredito sim que há poesias que notadamente se referem mais ao universo feminino, à mulher. Nossa sociedade é patriarcal e os temas ligados ao masculino predominam e se impõem como parâmetro. Os temas ligados ao feminino aparecem como contraste, ganham contorno e definição por serem marginais, não vigentes. Vira um sub-campo: poesia feminina. Isso é muito reducionista, em minha opinião. Acho que há a literatura.
Sobre as escritoras feministas, acho que esse “feministas” é uma designação, um título que se assume para dar mais visibilidade a um grupo que trata de temas marginalizados; para trazer à luz a histórica subordinação desses temas e assegurar seu espaço na oficialidade, no discurso vigorante. É uma estratégia necessária, positiva. Mas a classificação é posterior ao fazer poético. O momento da poesia não tem categoria nem preceito. Já a circulação da poesia é política, está inserida numa ordem que tem poderes, hierarquia, patriarcado.
Não sei se é mais difícil para uma mulher ser reconhecida como escritora. Mas sei que, de uma maneira geral, é mais difícil pra uma mulher ser reconhecida. Com a poesia não deve ser diferente.

JIVM – De uma década para cá, a proliferação de blogs é algo alucinante, o que permite que cada pessoa possa criar sua página e enviar suas dores, alegrias, recados e mensagens para o mundo. Você, que tem um blog e faz desse suporte a residência de sua criação, o que acha dessa nova possibilidade? Você acha que é suficiente para um escritor publicar no seu blog ou no seu site, ou é preciso publicar um livro impresso para se realizar efetivamente.

RB – A internet abre muitas possibilidades e, muitas vezes, é a possibilidade que faz o ladrão, ou o poeta. Mas há também muito lixo, é um meio que traz em si um discurso, um ritmo, um modo. É perigoso. Não sei bem o que acho de um blog. Para mim, veio a calhar. Eu gostava de escrever, mas não era escritora e nem sonhava em ter um livro. Apenas gostava de escrever e tinha empenho e cuidado na confecção de minha poesia. Achei justo exibir pra quem se dispusesse a ler. Por isso o blog. Só depois de um tempo, é que passaram a me ver como poeta, e a possibilidade de lançar um livro se fez tangível. Porém, nunca parei para investir mais a fundo nessa perspectiva. Talvez por preguiça e desleixo, ou por prudência, sei lá. Não sei ao certo o que acho disso tudo. Passo.

JIVM – E pra acabar, fale um pouco da sua ligação com as outras manifestações artísticas e em que medida essas outras linguagens interferem na sua criação. E fale, também, das suas influências e de seus projetos.

RB – Minha profissão é a de atriz. Foi o teatro que escolhi como ofício, como meio de sustento, de troca social. As outras artes me nutrem igualmente o espírito, mas não têm o mesmo peso que o teatro exerce no meu cotidiano. É outro tempo, outra responsabilidade. Cantar e escrever são minha yoga, é o que faço para estar mais em paz, “co’alma calma”. E tudo isso é pra mim indispensável, necessário.
Por desenho e pintura eu sempre fui fascinada. Quando vi os primeiros desenhos de Vânia Medeiros, grande amiga e parceira, fiquei tão fascinada que nunca mais me desatrelei deles. Eu acho o que Vânia desenha muito íntimo e, portanto, do mundo; meu.
Cada criação minha, seja no teatro, na poesia ou na música, reflete um mesmo impulso, mas manifesto de diferentes formas. E forma é conteúdo. A criação em cada meio é muito diferente. No fundo, porém, “todos os poemas são de amor”. E todas as artes. Amor e mistério. E é ao deus-mistério que rendo graças e suor.
E já que citei Quintana, quero apontá-lo com uma de minhas ternas referências. Junto dele estão Adélia Prado, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Manoel de Barros, Paulo Leminski, Pablo Neruda e Fernando Pessoa. Estes são nomes que predominaram em minhas leituras desde a adolescência e continuam imperando em minha cabeceira.

TRÊS POEMAS DE RAIÇA BOMFIM


Ilustrações: Vânia Medeiros




















OFICIAL


especializar-me quero
é no ofício de vivente,
cumprir o expediente
com alegria e viço,
fazer o que tem que
ser feito...
carpintar
e só.



PONTE
a Seu Pitico


abismo, amor, poço fundo é risco
não é sina, é sangue, coisa viva à vista
derrame o que seja, veja o que veja
me alcance a vertigem, o medo, e inflame
que o nosso destino, amor, é ponte
e estamos no meio, no veio, ao meio.

abismo, amor, diante do abismo
todo medo é o mesmo, a morte, a queda
no entanto o destino, amor, é ponte
infinita ponte de pau e ferro,
não é sina, é sangue, coisa viva à vista
me alcance a vertigem e inflame

seja pleno o passo, presente, pungente
estados em tempo, derrame o que seja,
veja o que veja, não é romantismo,
é método, emenda, é sobrevivência;
liturgia mister, não é sina, é sangue,
coisa viva à vista

abismo e sigo, angústia e alegria
que o que em mim não é amor, é covardia



ESQUINA


Sentada
com as pernas em cruz,
largou-se a sorrir feito louca
jurando que era santa
e provava o milagre
a quem lhe pagasse pra ver:
tirava leite de pedra,
água de pau, melaço de carne
e prometia o paraíso
a quem lhe alcançasse
o céu

da boca.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

A PASSAGEM DO POETA ROBERVAL PEREYR POR JEQUIÉ - A CIDADE SOL



O poeta Roberval Pereyr esteve conosco em Jequié, na noite de 26 de setembro. Veio na companhia de sua esposa Bárbara. Sua participação no projeto Travessia das Palavras foi singular. Roberval é um poeta singular. Claro que o evento contou com a participação especialíssima do Grupo Concriz, da cidade de Maracás, que deu um brilho especial para a nossa noite de poesia. A foto acima é da participação do Roberval no projeto Uma Prosa Sobre Versos, em Maracás, no dia 11 de julho de 2008. Como podemos ver, Roberval está cercado de crianças e jovens, portanto está guarnecido pela mais pura poesia das crianças e pela imortalidade dos jovens. Vamos terminar esse bate-papo postando um dos belos poemas de Roberval Pereyr. Abraços.

JIVM


HERANÇA


Não trago mais que esta sede
de combinar erro e sonho
no mesmo triste compasso
no mesmo canto difuso

não trago mais que a saudade
do meu último (des)encontro
comigo e contigo (elo
selando a nossa desdita)

não trago mais que remorsos
de ter ferido ferido
meu mais íntimo reduto
em que o meu deus (santo e urso)
habitava (já não habita):

agora estou só: meu peito
é templo roto, ruído
e não sou mais que um soluço
sussurrado no deserto

(num deserto de sussurros)

e o medo com seus fantasmas
e o vento com seus enigmas
já me invadem, já me alarmam

e não trago mais que o estigma
dos que na vida perderam
a briga, os irmãos, a casa
e hoje perdidos vagam
por entre sombras e abismos.


ROBERVAL PEREYR

terça-feira, 22 de setembro de 2009

I SEMINÁRIO DA POESIA BAIANA NO OESTE DA BAHIA

Universidade do Estado da Bahia – UNEB
Departamento de Ciências Humanas / Campus IX
Barreiras – 2009

I Seminário da poesia baiana no Oeste da Bahia


PROGRAMAÇÃO

23 / 09 / 2009

7:30 hs – Credenciamento

8:00 hs – Palestra de abertura: Nomes e temas da poesia baiana pelo Prof. Dr. Aleilton Fonseca, membro da Academia de Letras da Bahia e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana

9:30 hs – Lançamento do livro O Pêndulo de Euclides, de Aleilton Fonseca

10:00 hs – Bate papo com o autor: Aleilton Fonseca

14:00 hs – Oficinas:
– A poesia de Godofredo Filho;
– A poesia de Carvalho Filho;
– A poesia de Ruy Espinheira Filho;
– A poesia de Sosígenes Costa;
– Samba de roda: uma poética do recôncavo, de Fred Souza Castro

16:00 hs – Mesa Redonda: Painel da Poesia Baiana Contemporânea, com o poeta e jornalista José Inácio Vieira de Melo. Mediador: Aleilton Fonseca

17:00 hs – Lançamento do livro A infância do centauro, de José Inácio Vieira de Melo

24 / 09 / 2009

8:00 hs – Oficinas:
– A poesia de Godofredo Filho;
– A poesia de Carvalho Filho;
– A poesia de Ruy Espinheira Filho;
– A poesia de Sosígenes Costa;
– Samba de roda: uma poética do recôncavo, de Fred Souza Castro

10:00 hs Mesa Redonda: Uma rede poética: lirismo amoroso e criação verbal em Eurico Alves, com o prof., mestre e poeta Cleberton Santos. Mediador: José Inácio Vieira de Melo

14:00 hs – Oficinas:
– A poesia José Carlos Capinan;
– A poesia de Carlos Anísio Melhor;
– A poesia simbolista na Bahia;
– O Movimento Poetas na Praça;
– A poesia de Antonio Brasileiro
– A poesia feminina baiana: Miryam Fraga e Maria da Conceição Paranhos;
– A poesia de Aleilton Fonseca

15:30 hs – Lançamento do livro Lucidez Silenciosa, de Cleberton Santos

16:00 hs – Mesa Redonda: Encontro com poetas locais. Mediação: Cleberton Santos

19:00 hs – Conferência: O fazer poético, com Geraldo Maia


25 / 09 / 2009

8:00 hs – Oficinas:
– A poesia José Carlos Capinan;
– A poesia de Carlos Anísio Melhor;
– A poesia simbolista na Bahia;
– O Movimento Poetas na Praça;
– A poesia de Antonio Brasileiro
– A poesia feminina baiana: Miryam Fraga e Maria da Conceição Paranhos;
– A poesia de Aleilton Fonseca

9:30 hs – Comunicações com a participação dos poetas Ametista Nunes, Geraldo Maia e o Prof. Msc. Antonio de Pádua de Souza e Silva

10:00 hs – MPP: uma poética de ruptura e resistência, com os poetas Geraldo Maia, Ametista Nunes e o Prof. Msc. Antonio de Pádua de Souza e Silva

14:00 hs – Comunicações

16:00 hs – Lançamento de livros e recital de poesia com os poetas Geraldo Maia, Ametista Nunes, Prof. Msc. Antonio de Pádua de Souza e Silva e convidados

17: 00 hs - Encerramento

BIENAL DO LIVRO DO RIO - AURÉLIO SCHUMMER ENTREVISTA JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

Fotos: Carolina Castro





segunda-feira, 14 de setembro de 2009

JIVM NA XIV BIENAL DO LIVRO DO RIO

foto Ricardo Prado

Pois é, gente, estou na maravilhosa cidade do Rio de Janeiro. Mas que lugar bonito! Estou hospedado no hotel Othon Savoy, em Copacabana, ao lado do mar. A Bienal do Rio está acontecendo no Rio Centro. É uma viagem daqui de Copacabana para lá. Mas uma viagem muito agradável. Lancei meu livro A infância do Centauro ontem. Foi um momento muito legal. Recitei para um pequeno público alguns dos meus poemas e atraí várias pessoas para o stand dos autores baianos com a força da palavra poética. Tive o prazer de contar com as presenças do poeta carioca Cairo Trindade e do agitador cultural de Rondônia Selmo Vasconcellos, dos amigos Pedro Rivas e Marcos Siqueira, e da belíssima professora de dança Mariana Siqueira e de várias outras pessoas. Além de meu livro, foi lançada também a agenda Retratos Poéticos do Brasil, de 2010, da Escrituras Editora, que tem como tema os poetas baianos e que conta com a minha organização. Tenho motivos de sobra para estar satisfeito.
Tive também o prazer de encontrar, na bienal, com o jovem e talentoso poeta e crítico Igor Fagundes, e com o editor da revista Confraria, Márcio André.
Nos primeiros quatro dias de Bienal e de minha estadia aqui no Rio, tive a satisfação de contar com a companhia carinhosa e amiga de Elaine Hazin que me apresentou a várias pessoas interessantes, como os integrantes do grupo Moinho (Lan Lan, Emanuele Araújo e Nara Gil), Chicão (filho de Cássia Eller) e a luminosa figura de Marta, com quem tive uma afinidade espiritual. Também fiz passeios com o casal Junia Leite e Bruno Machado, pessoas ternas e de bem com a vida. Destaco também a feliz coincidência do encontro com o ator Jackson Costa na Gávea. Estávamos reunidos, um grupo de baianos formado por Sérgio Rivero, Elaine Hazin, Sérgio Hazin, Junia Leite, Bruno Machado e eu, encontramos Jackson e resolvemos assistir a peça Deus é química, de Fernanda Torres, com os atores Luís Fernando Guimarães, Francisco Cuoco, Jorge Mautner e a própria Fernanda Torres.
Outro momento de satisfação foi o reencontro com Helena Ortiz, na quinta à noite, no bairro de Santa Tereza, onde a minha amada amiga reside. Pena que no dia seguinte sua mãe tenha falecido e Helena viajou para o Rio Grande do Sul para despedir-se de seu ente querido.
Mas tem muita coisa pela frente, pois permaneço aqui no Rio até o dia 21. Já tenho encontros marcados com Astrid Cabral, Igor Fagundes e Helena Ortiz, assim como um recital para Pedro Rivas, Marcos Siqueira e um grupo de amigos seus que pretendem me apresentar. Por enquanto é só.
JIVM

ESCRITORES BAIANOS LANÇAM LIVROS NA BIENAL DO RIO

A visitação no stand dos autores baianos na Bienal do Livro do Rio tem sido bastante animadora. Os cariocas tem demonstrado interesse nas publicações dos autores da Bahia.
Uma prova disso foi o êxito dos lançamentos dos livros “Domingos Sodré, um sacerdote africano” (Companhia das Letras, 2007), do historiador João José Reis; e “A infância do centauro” (Escrituras Editora, 2007), do poeta José Inácio Vieira de Melo; nos dias 11 e 13, respectivamente.
Os autores falaram para uma platéia seleta na aconchegante sala do stand. João José Reis fez uma abordagem sobre temas como candomblé e islamismo na Bahia, apresentado ao público os conhecimentos de um pesquisador minucioso, além de falar da sua relação com o mercado editorial.
José Inácio Vieira de Melo, por sua vez, fez um animadíssimo recital que despertou a atenção do público passante. O poeta também tratou de temas como a poesia contemporânea da Bahia, a escassez de leitores de poesia e fez uma explanação sobre sua obra, que contempla a força mística e telúrica do universo campesino aliada ao conflito existencial do homem na pós-modernidade.
O próximo título a ser lançado será “Floração de Imaginários” (Via Literarum, 2008), livro de ensaios do escritor Jorge de Souza Araujo, que vai acontecer no dia 16, às 19 horas.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

ELIANA MARA CHIOSSI E SUAS FÁBULAS DELICADAS NA CIDADE DAS FLORES



P I E D A D E

Se eu amasse Hitler, seria uma santa. Ofereceria, para meu pobre ditador, todo o perdão. Em noites de frio, aguardaria sua chegada, com a sopa quente. Ofertaria o abrigo do meu colo. Se eu amasse Hitler, arranjaria um jeito de ser surda. E falaria com ele apenas de assuntos banais como a textura do morango e a beleza dos cristais. Para evitar pesadelos e higienizar minha memória, dos relatos do horror por ele praticado, eu iria me transformar, pouco a pouco. No estado de pedra dura e condensada, desejaria a morte, cada dia. Mas antes, a face de santa seria coberta pelas lágrimas de sangue. Se eu amasse Hitler, teria a vida de uma estátua. Chegaria o momento do extremo alívio, morte desejada. Na expressão do meu rosto, prévio monumento, haveria a gravação terrível da certeza: aquele homenzinho odioso era meu filho. E era humano.

ELIANA MARA CHIOSSI

*

Eliana Mara Chiossi vai se apresentar, no próximo dia 12 de setembro, no projeto Uma Prosa Sobre Versos, na cidade de Maracás, Bahia, coordenado por Edmar Vieira. Na ocasião, Eliana Mara vai lançar Fábulas delicadas, que é o seu primeiro livro, mas que surge com uma maturidade que é possível apenas para quem tem ouvido absoluto e compreende os ritmos inumeráveis das polifonias dos delirantes. O evento conta sempre com a participação especial do Grupo Concriz, que faz um belo recital com poemas do convidado (a). O Grupo Concriz é composto por 25 jovens da comunidade maracaense e coordenado pelos irmãos Marcelo Nascimento e Vitor Nascimento Sá.
Eliana, minha amiga, viva intensamente esse momento de glória da sua palavra poética. Leve suas fábulas delicadas para a Cidade das Flores e semeie as pétalas do seu sentimento mágico no coração da calorosa platéia que vai apreciar seu trabalho. Gostaria muito de estar com você, mas minha poesia também vai estar se espraiando por outras paragens – estarei na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Mas, de alguma maneira, estaremos juntos, você, eu e os concrizes de Maracás. Beijos.
JIVM

terça-feira, 1 de setembro de 2009

SANGUE NOVO - VITOR NASCIMENTO SÁ



A POESIA COLOCA A VIDA EM DESORDEM – VITOR NASCIMENTO SÁ nasceu em 1982, no sudoeste da Bahia, em Maracás, também conhecida como Cidade das Flores, onde vive até hoje. Poeta e professor de literatura, formado em Letras na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) em Jequié, é co-diretor do Grupo Concriz – equipe de jovens recitadores e poetas que tem realizado diversos recitais no Estado, desde 2005. Vitor é um poeta cauteloso e fica um tanto arredio quando solicitado a mostrar seus versos. O clima frio de Maracás, que chega à temperatura de 10º entre maio e agosto, é propício para a maturação de sua poética e para que possa remoer o conflito que o perpassa: “Eu perco a paciência com a minha própria poesia e a deixo de lado na esperança de que eu seja de uma vez por todas livrado dessa praga. Em vão. Basta ler alguma coisa e novamente a poesia vem desfazer minha paz e colocar minha vida outra vez em desordem”.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – O que o motiva a ser poeta? É tão importante assim?

VITOR NASCIMENTO SÁ – Eu não me sinto motivado a ser poeta. Eu sou poeta. Acredito que há algo em minha natureza que impõe isso independentemente do destino que eu mesmo procure dar à minha vida. Então, eu sou poeta. Se eu não tivesse contato com a literatura, talvez essa força tivesse se manifestado de uma outra forma, talvez em outra modalidade artística. Mas com certeza a atitude poética seria parte de minha essência de qualquer maneira. Essa força, ou natureza, é algo que até tento sufocar às vezes, porque tenho medo de me expor demais na escrita. É por essa razão que minha produção tem lacunas de meses. Eu perco a paciência com a minha própria poesia e a deixo de lado na esperança de que eu seja de uma vez por todas livrado dessa praga. Em vão. Basta ler alguma coisa e novamente a poesia vem desfazer minha paz e colocar minha vida outra vez em desordem. Por isso, repito, Inácio, sou poeta e ponto.
Na minha infância já me sentia atraído pela prática da escrita, mas a escrita de um modo geral. Por ser tímido e, às vezes, excessivamente introspectivo, sempre tive mais facilidade de comunicar meu pensamento por essa via. A fala sempre me foi um esforço para além de minha natureza e a busca pela possibilidade de recusá-la, de optar por algo que, pelo menos aparentemente, não me expusesse tão diretamente, me levou ainda na adolescência a arriscar os primeiros versos confessionais. Mas diria que de poético nesse caso só há a minha lembrança, que talvez não corresponda ao que de fato aconteceu, porque a memória do poeta está a todo instante sendo reescrita. O texto que eu produzia naturalmente não passava de um desabafo mal alinhavado. E não podia ser diferente: não se pode escrever poesia sem ler poesia. A arte poética propriamente dita foi algo a que tive um contato mais sólido somente no curso de Letras. Acho que há ainda uma deficiência na educação básica quando a missão é introduzir o estudante na literatura, em geral, e na poesia, em particular. E não posso dizer que tenha encontrado em minha família exemplos de bons leitores. Mas depois da faculdade o meu tardio contato com a poesia foi se intensificando. Acabou que aquela fascinação pueril pela escrita e o questionamento constante de minha própria existência me empurraram para esse abismo que é a poesia em minha vida de uma forma que ela passou a ser essencial. Não sei quantas vezes tentarei novamente sufocá-la, quantas vezes fugirei desse abismo. Mas sei que não posso viver negando a minha essência o tempo inteiro. Um dia terei que assumir esse compromisso de modo mais efetivo.

JIVM – O poeta desempenha algum papel na sociedade? O poeta tem alguma função? A poesia serve para que?

VNS – Função, talvez sim. Incomoda-me muito o fato de alguns acadêmicos desejarem dar ao poeta uma utilidade. Ele não precisa disso. A poesia, como qualquer outra forma de arte, é arte justamente por se contrapor ao que é utilitário. Não discutirei obviamente as relações que se podem fazer entre o artístico e o utilitário em outras manifestações, como a arquitetura ou a moda. Mas a idéia que a humanidade construiu de arte ao longo dos séculos a põe do lado oposto de qualquer coisa que sirva para algo. A poesia e a literatura como um todo não servem, nem podem servir, para nada. Até porque somos nós que nos colocamos a seu serviço, não o contrário.
O papel que o escritor de literatura desempenha na sociedade, portanto, é algo muito questionável. Em primeiro lugar, porque literato de verdade não escreve para uma sociedade, não escreve pensando no que será útil, agradável ou aceitável para o público. Para fazer esse tipo de coisa já temos a turma da auto-ajuda. Em segundo lugar, porque a sociedade muda e o texto escrito não. Um poeta que nos parece idiota hoje poderá ser o gênio injustiçado do próximo século. Então quem escreve hoje pode não desempenhar nenhum papel na sociedade de hoje, mas mudará as próximas gerações. O contrário também é verdade: quem se coloca na literatura pensando desempenhar um papel importante no cenário social de seu tempo poderá ser um grande esquecido talvez daqui a cinco anos.
A poesia renova a linguagem. Mas não sei se isso é a função da poesia. Parece-me que essa renovação é apenas uma conseqüência da poesia. Porque, afinal de contas, não é a intenção do poeta (pelo menos pelo que me parece) renovar a linguagem. A intenção do poeta é a própria poesia, é a arte e a palavra. O resto é periférico, é secundário.

JIVM – Fale sobre o que é, o que faz e o que pretende o Grupo Concriz. E fale também da participação do Concriz nos projetos de poesia da Bahia.

VNS – Em Maracás há uma turma envolvida com literatura que, liderada pelo poeta Edmar Vieira, desde o ano 2000, pelo menos, fazia recitais esporádicos, principalmente para lançamentos de livro de poesia e para eventos organizados pela secretaria de educação. Mas não era um grupo fixo. Era um monte de amigos que se renovava a cada oportunidade de apresentação. Também não eram apresentações regulares, eram pontuais. Tenho notícias de diversos recitais. O primeiro que participei foi em 2005. Dois anos depois, foi realizado o recital de lançamento de A Infância do Centauro em Maracás e Edmar Vieira me convidou para dirigir com ele. Depois disso, começaram a surgir outras oportunidades de modo mais regular, como o projeto Pétalas, lançamentos de livros em outras cidades e participações em fóruns e alguns eventos da educação. Por isso é que surgiu a idéia de fazer um grupo que se consolidasse. Depois escolhemos o nome. Concriz é um pássaro muito comum no sertão que tem um canto muito belo. É conhecido também como sofrê.
Em 2008, participamos do projeto Uma Prosa Sobre Versos em Maracás e fizemos sete recitais de poetas diferentes. No mesmo ano, fizemos dois recitais em Jequié, um em Lafaiete Coutinho, um em Iramaia e outro em Santa Inês. Todas essas cidades são próximas de Maracás. Em 2009, estamos realizando o segundo ano de Uma Prosa Sobre Versos e participamos também de um projeto bem parecido em Jequié, o Travessia das Palavras. Mas, sem sombra de dúvidas, a nossa melhor participação foi na Bienal do Livro de Salvador. Fizemos um recital no stand da Secretaria da Cultura e dois recitais na Praça de Cordel e Poesia.
O grupo se renova o tempo inteiro e praticamente não tem limite de idade: Edmar Vieira, o mais velho, já passa dos trinta; o componente mais novo tem seis anos. Desde que a criança saiba ler e goste de poesia, pode fazer parte do Concriz, respeitando-se obviamente um limite máximo de participantes, porque não podemos dirigir tanta gente ao mesmo tempo. Hoje a direção do grupo é dividida entre mim, Edmar Vieira e o também poeta Marcelo Nascimento, meu irmão. E todos nós temos também outros compromissos, porque nossa atividade no Concriz não é remunerada. Agora, o grupo tem vinte e cinco recitadores. Concordamos que não dá pra aceitar mais ninguém, por enquanto.
No futuro, pretendemos elaborar um recital de vários poetas baianos, possivelmente privilegiando algum tema, e produzir esse recital em nosso território, o Vale do Jiquiriçá. Incomoda-nos o fato de produzir um recital para ser apresentado apenas uma vez. Outra ambição do grupo, que talvez se concretize ainda esse ano, é gravar um CD de poesias, também de autores baianos. Há outros projetos em estudo, principalmente em lançamento de livros de poesia no Vale do Jiquiriçá.

JIVM – Quais foram as leituras que mais lhe marcaram? Quais os autores referenciais?

VNS – A que mais me marcou foi a obra completa de João Cabral de Melo Neto. Deu-me uma visão bem diferente, muito mais madura, da literatura e me fez afastar da idéia de poesia como pura confissão e emotividade. Com Cabral, consegui aproximar-me do conceito de poesia enquanto construção. Mas considero indispensáveis a leitura de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Ferreira Gullar. Acho que isso é o básico e é o que tenho em maior estima. Não posso esquecer de outros que leio esporadicamente como Cecília Meireles, Vinícius de Moraes e Fernando Pessoa. Hoje estou lendo Federico García Lorca, com o meu espanhol sofrível. Mas, em matéria de leitura, não tenho predileção por essa ou aquela poesia, por isso é que entrei em contato também com Leminski e, posteriormente, com os Campos e Pignatari, embora não me sinta muito atraído pelo Concretismo. Enfim, sou professor de literatura; preciso conhecer um pouco de cada coisa da tradição à renovação. Mas minhas referências são, além dos autores do modernismo que já citei, os poetas do meu tempo: Ruy Espinheira Filho, Florisvaldo Mattos, Kátia Borges, Carlos Barbosa e você, José Inácio Vieira de Melo. Acho importante para o poeta de hoje, ler os poetas de seu tempo. Não dá para ficar só na tradição. Afinal de contas, a poesia só existe porque se reinventa e todos nós precisamos acompanhar essa reinvenção.

JIVM – A sua poesia caminha em que direção? Há algum livro em andamento? E o que mais?

VNS – Não sei se minha poesia tem uma direção. Também não tenho projeto de um livro. Vou escrevendo poemas, só isso. Há semanas que produzo muito e, na semana seguinte, jogo tudo fora. Depois passo meses sem escrever. E é isso. Não tenho muita disciplina e também não tenho pressa de publicar. Vou escrevendo na esperança de que o momento certo chegue, o momento em que terei certeza de que posso publicar sem arrependimentos futuros.
No mais, Inácio, resta agradecer pelo espaço, pelos conselhos, pela amizade. A poesia baiana precisa de pessoas generosas como você, pessoas que se dedicam à causa da poesia e não medem esforços para guiar os mais novos nesse caminho. O seu blog é um lugar de reuniões. Todas as pessoas da literatura da Bahia passam por aqui para dar uma olhadinha, deixar um comentário e conhecer gente nova. Sua produção poética já é em si um legado. Mas você faz mais. Você faz a diferença. Obrigado.

TRÊS POEMAS DE VITOR NASCIMENTO SÁ


Ilustração: Gilvan Samico




















CARONTE


Na primeira vez que vi Caronte,
minha vida pareceu mais acabada.

Mas passadas quase três eternidades,
mirando sua face na saída,
pareceu-me a única amiga
a que eu já tinha observado.

Na terceira vez que Caronte encontrei,
já trazia o coração despedaçado:

nem o cumprimentei, pobre barqueiro.
Paguei e ordenei que atravessasse,
eu, lamentando ter morrido de infarto
e com paixão mandando no meu peito.

Caronte, agora, encontro todo dia:
é porteiro do prédio onde trabalho.

Com bom dia o saúdo logo cedo;
vem trazer o meu jornal meio amassado.
E, ao sair, digo assim, meio com medo:
boa noite, meu barqueiro desgraçado.



ESCAPULÁRIO


Eu, o escapulário e um copo d’água.
Então me vejo caminhar de longe,
vento no cabelo encaracolado.
E a sombra cerca uma coivara e some.

Espanto-me com tiros pelas costas.
No chão, sinto a poeira pela cara.
E digo que a verdade agora é posta:
eu, o escapulário e um copo d’água.

Deus, água de coco e Azerbaijão:
um homem-bomba bufa em restaurante.
Por mais que se queira pleno futuro,

se sabe que o passado é mais que fruto,
pra forçar que nosso presente pare:
eu, o escapulário e um copo d’água.



CORTEJO DO FOGO


Ontem, o passado me visitou quase inteiro,
como uma procissão de São Roque
nas ruas de terra de Maracás.

Minha mãe sentada – a parede nua às suas costas –
me espiava baixinho e ordenava
ficar de olho no caminho pra que ela não caísse.
E balbuciava como quem grita:
menino, por que você não olha por onde anda?

Mas como poderia eu olhar,
se minha mãe nascera cega
em pleno dia de Santa Luzia
e passava a enxergar aos poucos
como na história sagrada
que parcamente lia?

Terra, cuspe e barro de Nosso Senhor
na face pequena de minha mãe
e o sorriso de minha avó
contando histórias perto do fogão a lenha.

Aí eu achei graça do pudor
com que olhei pela primeira vez
a pelagem rala na boceta jovem de minha prima
tomando banho de cuia no banheiro de palha.

Fogo!

Meu passado é brincadeira perigosa.
Mas me apareceu em formato de chapéu
e, surpreendentemente, a cabeça ainda
me servia como nos meus quatorze anos.
Mas estava à venda a preços
que, na época, não se praticavam.

E minha tia morta ordenando a todos
que saíssem como não pudessem,
que saíssem mesmo a qualquer custo.

Afinal, o meu passado será sempre
brincadeira de fogo, perigosa.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

VERÔNICA DE VATE - ANTONIO BRASILEIRO


ANTONIO BRASILEIRO (1944), escritor e artista plástico, nasceu nas Matas do Orobó, sertão baiano. Criador das Edições Cordel e das revistas de poesia Serial e Hera, tem 24 livros publicados, dentre eles Dedal de areia (poesia, 2006), Poemas reunidos (2005), Da inutilidade da poesia (ensaio, 2002), Pequenos assombros (poesia, 2001), A estética da sinceridade (ensaios), A história do gato (conto), Antologia poética (1996) e Caronte (romance, 1995).
Como artista plástico, além de uma centena de exposições (coletivas e individuais) executou painéis para museus, universidades, bibliotecas e praças públicas, e fez numerosas ilustrações para livros, revistas, jornais, cartazes etc.
Doutor em Letras e membro da Academia de Letras da Bahia. Reside na cidade de Feira de Santana.

*
Antonio Brasileiro vai participar, no próximo sábado, dia 29 de agosto, do projeto Travessia das Palavras, na cidade de Jequié, Bahia. O evento é coordenado por Leonam Oliveira e por José Inácio Vieira de Melo. O Pojeto vai contar também com a participação especial do Grupo Concriz - uma turma da boa da cidade de Maracás, composta por 25 jovens recitadores, dirigida pelo trio de poetas Edmar Vieira, Marcelo Nascimento e Vitor Nascimento Sá.


ARTE POÉTICA


Meus versos são da pura essência
dos poemas inessenciais.

Nada dizem de verídico
não querem nada explicar.

Não narram o clamor dos peitos
não encaram a dor do mundo.

Se por vezes falam alto
é por puro gozo, júbilo:

humor que brota de dentro
como se movem os astros.

Eles, meus versos, são pura
floração de irresponsáveis

flores nascidas nos mangues,
por nascer – mas multicores,

lindas, não importa que os homens
as conheçam ou não conheçam.


ANTONIO BRASILEIRO

ANTONIO BRASILEIRO - ESTUDO 165

Ilustração: Antonio Brasileiro

ESTUDO 165

Compor um homem
com suas tramas, seus dramas,
teogonias, gramáticas, soluços;
compor um homem,
do orvalho matinal compor um homem,
do céu cheio de estrelas, do mistério
do homem
compor o homem;
compor um homem
da criança que há no homem, do homem
a adivinhar-se em antiquíssimas retinas;
compor um homem
com seus soluços, gramáticas, teogonias
- e recitá-lo perante os outros homens.

ANTONIO BRASILEIRO

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

NHÔ GUIMARÃES - A PEÇA

Meus caros, na semana passada assisti, no Teatro do Sesi Rio Vermelho, a peça Nhô Guimarães, com meu compadre Gabriel Gomes e sua namorada Lis. A peça é baseada no romance de um outro amigo, Aleilton Fonseca. Uma adaptação singela e singular. Fiquei muitíssimo impressionado com a performance magistral da atriz Deusi Magalhães, que traz para a cena uma mulher octogenária, uma velhinha, que mostra um pouco das suas vivências nas plagas ermas e agrestes do sertão. Tudo em dosagem certa. Nada de exageros nem de cenários entupidos de bugigangas. A casa da anciã é um retrato fiel da casa dos camponeses sertânicos. Aquela velha, na qual se transfigura a atriz Deusi, é um exemplo da fortaleza do sertão. Parabéns a Deusi e ao Edinilson pela adaptação certeira. Aos meus amigos, mais uma vez a minha recomendação. A peça é imperdível. Seus 75 minutos de duração passam em menos de meia hora. Uma beleza!

O universo do homem sertanejo é o tema de Nhô Guimarães, novo espetáculo do Núcleo Criaturas Cênicas.


Em 2008, ano em que se comemorou o centenário do escritor mineiro, João Guimarães Rosa, o Núcleo Criaturas Cênicas de Salvador/BA, realizou a adaptação do romance Nhô Guimarães (2006) para a linguagem teatral, do escritor baiano Aleilton Fonseca, escrito para homenagear os 50 anos do livro Grande Sertão: Veredas (1956) de João Guimarães Rosa. A adaptação para o teatro foi realizada por Deusi Magalhães e Edinilson Motta Pará, atriz e diretor desta montagem que teve sua pré-estréia no teatro do IRDEB em 27 de novembro de 2008.
O projeto Nhô Guimarães Pelo Sertão do Núcleo Criaturas Cênicas foi um dos vencedores do Programa BNB de Cultura/2009. Esta é a 6ª montagem deste grupo premiado em encenações como “Escoria” de Michel de Ghelderode e “A Pedra do Meio Dia ou Artur e Isadora” de Bráulio Tavares.
Cumprindo a agenda deste projeto a peça Nhô Guimarães teve sua estréia no sertão baiano percorrendo com suas apresentações, em maio de 2009, nas cidades de Senhor do Bonfim, Uauá, Canudos e participando da abertura do I Colóquio em Estudos Literários e Lingüísticos – UNEB - Campus XXII, em Euclides da Cunha. A peça segue agora para temporada de dois meses no Teatro do SESI – Rio Vermelho.
O espetáculo, em forma de monólogo, transpõe para o palco a vida, as idéias e a mítica do nosso sertão, privilegiando a linguagem falada rica em neologismos, recheadas de palavras incomuns próprias dessas regiões e tão presente nas obras do autor mineiro. Esse tratamento é mantido na encenação como forma de valorização da diversidade lingüística, existente na língua portuguesa, especialmente a encontrada no sertão brasileiro.
Essa visão é apresentada através dos causos contados por uma senhora octogenária a um visitante. Entre uma estória e outra, a velha cita a presença de um amigo do falecido marido, Nhô Guimarães, senhor de jeitos elegantes, que sempre os visitava, com "seu ouvido bom de ouvir causos e seus óculos pretos de aros redondos". Uma referência direta ao escritor mineiro João Guimarães Rosa. Enquanto relata suas lembranças, a velha desenvolve ações cotidianas, como coar um café, apertar um fumo de rolo, fazer um pirão, dar comida às galinhas etc., busca-se criar uma transposição de quem assiste para o ambiente do cotidiano interiorano.

Salvador
Local: Teatro SESI Rio Vermelho
Apresentações: de 08 de agosto a 27 de setembro/2009
Sábados e domingos, 20 horas.
Ingressos: R$14,00 inteira e R$ 7,00 meia entrada

Para mais informações:
Deusi Magalhães (071) 9137-4567 e 3011-1437 magadeusi@gmail.com
Edinilson Motta Pará (071) 8754-2769 nilsinho67@hotmail.com

domingo, 16 de agosto de 2009

ENTREVISTA - RONALDO CORREIA DE BRITO: GALILÉIA - RUÍNAS E LABIRINTOS DO SERTÃO

Por José Inácio Vieira de Melo


O escritor Ronaldo Correia de Brito foi o grande vencedor da segunda edição do Prêmio São Paulo de Literatura. Seu romance Galiléia (Alfaguara) foi eleito melhor livro do ano. Concorriam na categoria melhor livro do ano dez autores, incluindo José Saramago (A Viagem do Elefante), Moacyr Scliar (Manual da Paixão Solitária) e Milton Hatoum (Órfãos do Eldorado). O gaúcho Altair Martins foi escolhido melhor autor estreante por A Parede no Escuro (Record). Cada um receberá R$ 200 mil, o maior valor pago a um prêmio literário no país.
Entrevistei Ronaldo Correia de Brito duas vezes: em julho de 2005, no período do lançamento do livro de contos Livro dos Homens; e em abril de 2009, quando do lançamento do romance Galiléia. Agora, as entrevistas estão disponíveis aqui no blog. Parabéns ao meu querido amigo Ronaldo Correia de Brito pelo merecido destaque e desejo boa sorte nos prêmios Jabuti e Telecom, visto que Galiléia já é finalista dos dois.


A entrevista abaixo foi publicada no suplemento A Tarde Cultural, do jornal A Tarde, de Salvador, nas páginas 06 e 07, no dia 18 abril 2009.

Fotógrafo Hans von Manteuffel

"Agora, quero viver um pouco fora da literatura"


Ronaldo Correia de Brito, cearense radicado em Pernambuco, é um dos contistas mais admirados da literatura contemporânea brasileira. Autor de A noite e os dias (Bagaço, 1997), Faca (2003) e Livro dos Homens (2005), publicados pela editora Cosac Naify, fala, nesta entrevista, de seu novo livro: Galiléia (Alfaguara, 2008), que é também seu primeiro romance. Correia de Brito é um dos convidados do Café Literário da 9ª Bienal do Livro da Bahia. Sua participação vai acontecer no dia 21 de abril, às 20 horas, acompanhado do escritor amazonense Márcio Souza. O tema proposto para o encontro é “Na literatura, falar de si mesmo é falar do mundo?”


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Desde a Odisséia, o herói busca o caminho de volta para casa. Não é diferente com seus personagens, os três pastores errantes: Adonias, Ismael e Davi. Galiléia representa a busca da identidade ou pretende conferir o atestado de orfandade a esses personagens?

RONALDO CORREIA DE BRITO – Num poema de Jorge Luis Borges pode-se ler os seguintes versos: “Não haverá nunca uma porta”. E mais adiante: “Não existe. Nada esperes. Nem sequer no negro crepúsculo a fera”. O poema se chama “Labirinto”. Durante todo o tempo em que escrevi Galiléia, me lembrei desses versos. É como se o romance terminasse assim, sem qualquer esperança para Adonias, Ismael ou Davi de reaverem um mundo que se desfez no passado e que ainda não possui um futuro claro. Ismael ainda teima em encontrar sua vida nas ruínas da casa e do sertão de Galiléia, mas Davi e Adonias só conseguem fazer o caminho de volta, que não sabem ao certo qual é. Há dois labirintos a percorrer no romance, um exterior e um interior. E em qualquer um deles os personagens são órfãos de uma Ariadne que já não existe.

JIVM – Os três personagens retornam para o lugar onde seus conflitos existenciais tiveram origem, guiados pelo cheiro da carniça do patriarca que escolhera seus nomes. Ao contemplar os escombros da saga familiar, o que buscam eles? Redenção?

RCB – Acho que buscam o que não existe. Terá existido em algum tempo? Escrevi certa vez que o sertão fica em Marte e lembrei de um poeta popular do Rio Grande do Norte, Fabião das Queimadas, que termina o seu folheto A morte do touro da mão de pau, com esse diagnóstico pessimista sobre o mundo sertanejo:

Já morreu, já se acabou,
Está fechada a questão.


JIVM – Apesar de estarem inseridos na contemporaneidade, e assistirmos ao longo das páginas a decadência de um mundo arcaico, ainda assim seus personagens têm cheiro de sertão e parecença com pastores bíblicos. Em que medida, na sua literatura, o mundo sertanejo está imbricado com o bíblico?

RCB – A história dos homens que povoaram os sertões é muito semelhante à do povo hebreu, como é relatada na Bíblia. São pastores que chegam com seus rebanhos, se apossam de terras que não lhes pertencem, massacram os habitantes nativos, destroem, se apossam. No caso de nossos colonos, que dizimaram os índios, eles traziam uma carta de doação do rei de Portugal, um representante do deus da Igreja Católica; os hebreus vinham atrás da promessa de uma terra prometida, e traziam um contrato com o seu deus Iavé. Há muitos pontos em comum e a coincidência de haverem judeus cristãos novos entre os colonizadores dos sertões. Meu oitavo avô, Bernardo Duarte Pinheiro, era um desses judeus batizados em pé, e foi um dos que chegaram para se apossar da Galiléia sertaneja dos Inhamuns, no Ceará.

JIVM – Joca Reiners Terron afirma que “em Galiléia nada há de folclore: o sertão é matéria interior, irremediavelmente colada à subjetividade de quem o viveu”. Além desse cordão umbilical subjetivo, existe o personagem Adonias, um médico que reside em Recife, como você, e é o narrador do romance. Adonias é alter ego de Ronaldo Correia de Brito?

RCB – Tenho repetido que não sou Adonias. Acho que o fato de ter escrito na primeira pessoa e emprestar um pouco de minha memória à memória do personagem sugerem esse ‘alter ego’. Tento ser o menos subjetivo quando escrevo, mas é impossível não repassar o meu sertão interior para Adonias, um pós existencialista perplexo, em busca de saídas para os seus impasses. Pelo menos numa coisa concordo com Joca Rainers Terron, não trabalho com matéria do folclore. O sertão é apenas paisagem, um lugar que também se apresenta em Nova Iorque, Paris e São Paulo.

JIVM – Há um grande afeto entre Ismael e Adonias. Em algumas passagens, é possível perceber um clima de paixão no ar, mas sempre muito contida. Qual o motivo da contensão? Seria por causa do código do Livro dos Homens?

RCB – Se de um lado sempre percebi os afetos que ligavam os homens nas sociedades sertanejas, também percebi quanto havia de ritual e de contido no modo como esses afetos eram expressos. Não podemos falar que a relação de Adonias e Ismael é uma relação homoerótica, numa leitura atual do que é homossexualidade, mesmo considerando que são dois personagens contemporâneos. Eles estão ligados por vínculos amorosos sim, como o rei Davi e seu amigo Jônatas, filho do rei Saul, conforme está escrito na Bíblia. Construí essa relação cerimonial e contida, para diferenciá-la de formas mais explícitas de exercer a sexualidade, como é o caso do personagem Davi, do romance. Concordo com o professor Lourival Holanda, quando ele faz uma leitura de Galiléia pela ótica da inveja de Adonias por Ismael. Nessa inveja cabe tudo: o desejo de ser ou ter o outro e o impulso de matá-lo com uma pedrada.

JIVM – A morte e os mortos são presenças certas em seus livros. Em Galiléia, João Domísio, personagem presente em seus dois livros anteriores, Faca e Livro dos Homens, aparece como um fantasma, assim como sua esposa Donana, a quem ele assassinara. Ismael retorna do mundo dos mortos. A sombra da “indesejada das gentes” ronda o leito de Raimundo Caetano. Não há fronteira entre morte e vida? A morte é que atribui sentido à vida de seus personagens?

RCB – Não, não existe nenhuma fronteira entre vida e morte. Vivi num mundo permeável a essa passagem do tempo, de uma existência para outro. João Domísio e Donana, mesmo tendo morrido há trezentos anos, circulam pela Galiléia, como se nunca tivessem saído dali. Existe um poema belíssimo do peruano César Vallejo que diz “quando alguém vai embora alguém permanece. (...) Somente está solitário de solidão humana, o lugar por onde ainda nenhum homem passou. (...) Todos de fato deixaram a casa, mas na verdade todos continuam dentro dela”. Assim é Galiléia, e assim era o mundo em que vivi.

JIVM – Há um embate entre Adonias e seu tio Salomão, personagens bastante representativos de duas linhas de escritores da chamada região Nordeste: os que defendem os valores da tradição do sertão profundo e os que estão antenados com a globalização. Como você entende essa discussão e em qual dessas vertentes sua escritura se alinha?

RCB – Tio Salomão é um personagem com todos os traços definidos, é um homem que chegou onde sempre soube que chegaria. Ele se move por um plano de idéias e visões do mundo que não se alteram, é como a rota dos planetas. É velho e sábio, já nasceu velho e sedimentado. Adonias vai ao sabor do vento, recebeu informações de todos os lados, viajou pelo mundo e sofre o embate interno de tudo o que leu, viu e escutou. É o protótipo do intelectual contemporâneo, perplexo e sofrido. Não tomo o partido de nenhum dos dois personagens. Deixo que eles falem e se exponham. O leitor que escolha o partido a tomar. Mas, é claro que estou mais próximo de Adonias, por minha própria história.

JIVM – Ao final da leitura, a impressão que fica é de que o romance vai ter sequência? E vai mesmo?

RCB – Não sei. Tracei o projeto de um livro bem maior em número de páginas, escrevi muito, mas terminei cortando o equivalente a outro livro. A busca obsessiva da exatidão atrapalha minhas investidas no romance. Não fechei Galiléia porque não enxergo saída para os impasses propostos no romance e também porque gosto de narrativas abertas, sujeitas a se continuarem no tempo. É possível que eu volte à Galiléia. Adonias termina preso dentro de uma paliçada de motos. Mas, nesse momento, só penso em descansar, passar uns dias na serra ou na praia, viver um pouco fora da literatura.

JIVM – “Falo somente com o que falo,/ com as mesmas vinte palavras”. Esses dois versos são de um poema intitulado “Graciliano Ramos:”, da autoria de João Cabral de Melo Neto. Seus três livros de contos, assim como o romance, atestam que você é conciso no dizer, escolhendo sempre as palavras. Qual a relevância desses dois autores dentro de sua obra? Algum outro autor brasileiro é referência na sua produção?

RCB – Eu nem achava que Graciliano Ramos tivesse muita importância para mim, mas fiz uma releitura de Vidas Secase fiquei impressionado com nossas afinidades. Também aprecio a forma como João Cabral chega aos ossos das palavras e versos. Por outro lado, gosto do romantismo de José de Alencar, injustamente desprezado, e das metáforas de Guimarães Rosa.

JIVM – Você começou escrevendo peças teatrais. Depois de um bom tempo de depuração, publicou três livros de contos e passou oito anos escrevendo um romance. Pode-se esperar que, mais adiante, Ronaldo Correia de Brito venha a publicar um livro de ensaios ou mesmo de poemas? Qual a próxima novidade?

RCB – Tenho dois livros de contos e um de crônicas para dar acabamento e publicar. Mas preciso de um tempo para isso. Estou com a encomenda de uma novela juvenil, que se passa no Recife. Porém, a serra e o mar, nesse momento de minha vida, são chamados mais fortes.

ENTREVISTA - RONALDO CORREIA DE BRITO: O CÓDIGO DO LIVRO DOS HOMENS

Por José Inácio Vieira de Melo

Entrevista publicada no suplemento Tribuna Cultural, do jornal Tribuna Feirense, na cidade de Feira de Santana, nas páginas 01-02, no dia 17 de julho de 2005.


Ronaldo Correia de Brito, 55 anos, cearense radicado em Pernambuco, formado em Medicina no Recife, é um dos mais aclamados contistas brasileiros. Depois da consagração com o livro Faca, publicado pela CosacNaify, em 2003, e um dos finalistas do prêmio Telecom 2004, Correia de Brito lança, pela mesma editora, Livro dos Homens, em que dá continuidade a temática sertânica, da qual é inovador.
As histórias do contista do Sertão dos Inhamuns têm como cenário um sertão arcaico que sucumbe aos avanços da modernidade, mas que insiste em conservar os costumes, os seus códigos de honra. Suas personagens, por vezes, parecem retiradas de passagens bíblicas e, por outras, é como se saíssem da tela do cinema.
Nesta entrevista, Ronaldo Correia de Brito fala do avanço que dá, em Livro dos Homens, na relação entre cultura erudita e popular, da sua paixão pelo cinema e pelo teatro e de como essas linguagens dialogam no processo de criação de seus contos.

José Inácio Vieira de Melo – Depois do sucesso unânime de seu segundo livro, Faca (CosacNaify, 2003), você traz aos leitores Livro dos Homens, também publicado pela CosacNaify. O universo temático permanece: “Um sertão de ressonâncias existenciais, denso, de linguagem depurada (...)”. Em quais aspectos um livro se diferencia do outro, ou há uma continuidade como nos livros Contos da Montanha e Outros Contos da Montanha de Miguel Torga?

Ronaldo Correia de Brito – Eu e Rodrigo Lacerda, editor da Cosac, selecionamos 13 contos para compor Livro dos Homens, de um conjunto de 28 narrativas, cuidando em apresentar um livro novo, mas com ressonâncias do anterior. Textos como "Sapo", publicado na revista Iararana e "Catana" ficaram de fora por terem endereço certo, um mundo urbano facilmente reconhecível, ao contrário do “incerto sertão” em que costumo situar minhas histórias. Em Livro dos Homens, os conflitos culturais do nosso tempo, o estranhamento do sagrado e a globalização, temas que me são caros, estão presentes em "Cravinho", "Qohélet" e "A peleja de Sebastião Candeia", para citar apenas três contos. Acredito que também avancei na complexa relação entre cultura erudita e popular, transitando mais livremente por esses dois mundos, aparentemente inconciliáveis.

JIVM – Você publicou o primeiro livro de contos, As noites e os dias, em 1996, já próximo dos cinquenta anos de idade. O que o levou a esse “tempo de espera”?

RCB – Você lembra o filme Fanny e Alexander, de Ingmar Bergman? Tem uma bela metáfora sobre a arte, ou sobre a alma, se você preferir. Na casa de um judeu antiquário, que salva o menino Alexander do padrasto tirano, a alma do artista, vou chamá-la assim, é representada por Ismael, O Proscrito, que vive preso num quarto, guardado por cadeados e correntes. Este personagem masculino é interpretado por uma atriz, acentuando a ambigüidade da criação. Acho que na minha vida e na de muitos artistas, estou lembrando o italiano Lampedusa, aconteceu algo semelhante. Carregamos esse artista encarcerado dentro de nós, visitamo-lo vez por outra às escondidas, temerosos de que ele possa soltar-se. Tememos os estragos que acarretaria para as nossas vidas a sua absoluta liberdade. Sim, sempre me ocupei da literatura como o filósofo Espinosa se ocupava das lente s em que dava polimento, para descansar a mente dos pensamentos filosóficos. Todos os dias eu trabalhava os meus contos, estes que estão sendo publicados agora, reescrevendo-os à exaustão. Novelas de vinte páginas encolhiam para seis ou sete páginas. Sempre tirando, limpando, obsessivamente. O conto "Eufrásia Meneses", do Livro dos Homens, foi escrito há 30 anos. De lá para cá, sofreu mais de 50 reescritas. Um trabalho de doido.
Eu também sofria de um certo pavor à publicação, embora a desejasse. É contraditório, mas foi sempre assim mesmo. Além disso, achava que existiam livros demais, que os meus só iriam aumentar a confusão da Babel. E como se não bastasse, naquela época, eu vivia ocupado com o teatro e a medicina. Mesmo para uma pessoa que respira literatura desde pequena, mas que escolheu a profissão de médico, com uma jornada semanal de trabalho de no mínimo 60 horas, sobrava pouco tempo para escrever. Por mais que amasse os livros.

JIVM – Em seus contos há momentos (“Qohélet”, “Milagre em Juazeiro” – Livro dos homens; “Sapo” – Revista Iararana 10) que se aproximam da linguagem cinematográfica. O ritmo, as pausas conduzem o leitor para uma sala de projeção. Em que medida o cinema é uma influência em sua produção literária?

RCB – Quando deixei o Sertão dos Inhamuns e fui morar no Crato, na época a segunda maior cidade do Ceará, meu pai levou-me ao cinema. Tornei-me um viciado, freqüentador assíduo das salas de projeção, um deslumbrado como a Cecília de A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen. Via filmes todos os dias, os bons e os péssimos. Sabia as cenas decoradas, prestava atenção nos cortes, na música, nos enquadramentos. Lia e via cinema. Era um caso perdido. A professora do grupo escolar chamou os meus pais e falou preocupada que eu vivia no “mundo da lua”. Foi a primeira vez que escutei essa expressão. Descobri que todo filme e livro, por pior que seja, sempre nos ensina alguma coisa. Quando vi O Evangelho Segundo São Mateus, sem nunca ter escutado falar em Pasolini, entrei em estado de graça, tocado pela ousadia d a direção. Em contrapartida, numa noite de segunda-feira, desligaram as máquinas e suspenderam a projeção de A Chinesa, de Godard, porque toda a platéia preferiu ficar no saguão do Cine Cassino, olhando a chuva torrencial, de pé, presa e sem poder ir para casa, mas também sem querer assistir aquela chatice de filme. Impregnei-me de cinema e literatura como se fossem uma mesma linguagem. Na verdade, misturo teatro, conto, novela, cinema, ao meu bel-prazer. Circulo com naturalidade de um lado para outro. Transformo minhas peças em contos, os contos em peças, sem pudor.

JIVM – E as suas referências literárias mais importantes, quais são?

RCB – Eu gosto de livros que contenham todas as histórias, que pareçam inesgotáveis, que sejam representações do humano e do mítico. Comecei por uma seleta da Bíblia, a História Sagrada. Nesse livro eu aprendi a ler, e nele reconheci meu mundo, o sertão e seus pastores. Aprendi o sentido de amizade, que cultuamos como a mais elevada das virtudes. Muito cedo li a obra de José de Alencar e a de Machado de Assis. Também a de Monteiro Lobato. Depois, por um feliz acaso, tive nas mãos a Ilíada e a Odisséia, livros que nunca mais larguei. Ao mesmo tempo iniciei-me nas Mil e uma Noites, na versão clássica de Antoine Galland. Veio o tempo dos russos – Tolstoi, Dostoievski, Gogol –; do teatro grego, de Shakespeare, de Molière. Curti a moda da literatura latino-americana, até descobrir e esbarrar em Jorge Luis Borges. Li Fernando Pessoa, Lorca, os poetas brasileiros, e também esbarrei no meu eleito, Walt Whitman. Minha descoberta da maturidade são os clássicos indianos, Mahabharata e Ramayana. Não cito aqui a leitura dos contemporâneos, trato de livro que me influenciaram. Recentemente, um crítico escreveu que eu devo a Moreira Campos, contista cearense, cobrando que eu referisse isto. Eu considero Moreira Campos um dos melhores no gênero, mas só o conheci há bem pouco tempo, quando já havia definido o meu ritmo, e escrito esses livros que estão publicados. Devo a Moreira Campos ele ter existido e ser tão bom. E lamento não tê-lo conhecido antes.

JIVM – As personagens femininas são fortes presenças em seus livros. Contos como “Inácia Leandro” e “Cícera Candóia”, do livro Faca; e “Eufrásia Meneses” e “Maria Caboré”, de Livro dos homens, são uma prova disso. Davi Arrigucci Jr., no posfácio de Faca, salienta que essas personagens são “tremendas mulheres em situações extremas numa região específica do Brasil, vivendo dramas universais”. O que o leva à composição dessas personagens?

RCB – Sempre gostei das mulheres e tomei para mim as suas dores. Sou um feminista do feminino. Parece brincadeira, mas é isso mesmo. Você não citou a mulher do Livro dos Homens que mais aprecio, a personagem sem nome do conto "Rabo-de-burro". Na versão do conto para teatro ela se chama Antígona, em homenagem à heroína de Sófocles, que brigou sozinha contra a cidade de Tebas, pelo direito de sepultar o irmão. Sempre refleti sobre a vida das mulheres como minha avó, viúva com 33 anos, nove filhos, uma fazenda para administrar, num tempo em que bandoleiros, bandos de ciganos, levas de retirantes e beatos corriam os sertões, assombrando as pessoas. Minha mãe fazia os trabalhos da casa, educava os oito filhos, ensinava, exercia o papel de enfermeira da comunidade, e à noite costurava nossas roupas, numa máquin a Singer de pedal. Minha mulher, minha filha, e muitas outras mulheres são exemplos de força, coragem e resistência. Os homens se tornaram perplexos diante da afirmação desse poder feminino. Agora estou mais preocupado com os homens, com a nossa fragilidade, o impasse diante de um futuro sombrio, sem rumo certo, uma vez que ruíram todas as certezas em que estávamos assentados. Sim, este é um excelente tema para os meus contos, novelas e romances. Vou ocupar-me dos homens. Nós merecemos compaixão.

JIVM – Apesar das diferenças no processo de criação, parece existir uma confluência temática entre o sergipano Antonio Carlos Viana, o baiano Aleilton Fonseca e você. Os cenários, a presença constante da morte são algumas dessas semelhanças. Pode-se entender que está surgindo um grupo de escritores cuja proposta é a inovação e a retomada da temática do sertão, ou se trata de uma simples coincidência?

RCB – Eu acredito na coincidência de mais escritores da latitude nordestina estarem produzindo e sendo lidos, do que num movimento. Desde que Gilberto Freire estabeleceu os cânones do Movimento Regionalista, e surgiu o Romance de 30, que tentam enquadrar a nossa produção nessa cartilha, esquecendo que já se passaram 70 anos, e que todo escritor escreve na perspectiva do seu tempo. Essa cartilha nos prestou um grande desserviço. Regionalismo virou palavrão. Chamar um autor de regionalista é uma maneira de diminuir o valor do seu trabalho, reduzi-lo a estereótipos, enquadrá-lo em chavões, tratá-lo com preconceito e deboche. Pior do que ser chamado de regionalista só mesmo ser chamado de folclórico. Ou de contador de causos. Escrevi um artigo para a revista Continente com o título "Regionalista é a Mãe". O título foi censurado. É como se nada tivesse acontecido nas bandas de cá desde 1930, o mundo houvesse parado, e nós ainda escrevêssemos com bico de pena. Isto ocorre no mundo inteiro, e no Brasil não seria diferente. Quem detém o poder econômico, o poder da mídia, dita as normas de mercado, estabelece os critérios de qualificação e desqualificação. Estabelece até um modelo de crítica, e o ensina nas universidades. É exemplar um ensaio de Mário de Andrade sobre a poesia de Ascenso Ferreira, alertando para o risco do poeta cair na tipicidade, ele mesmo um regionalista de carteira, porque não há romance mais cheio de tipicidades do que Macunaíma, ou que mais mereça o adjetivo de regionalista.
Eu gosto de Antonio Carlos Viana e de Aleilton Fonseca, mas acho que a nossa escrita é bem distinta. Isto é ótimo. Temos em comum a região em que nascemos, mas não percebo neles, nem em mim, algo parecido com movimento. O sertão de que trato não existe, é pura memória inventada. Escrevo sobre um sertão invadido pelas cidades. E sobre cidades arruinadas pela ruptura com o sertão. Meus personagens, apesar da paisagem desértica, são neuroticamente urbanos. O que é o sertão, você sabe? Eu juro que não sei. No entanto, ele existe. E eu nada mais faço do que procurá-lo.

JIVM – O conto está passando por um processo de revitalização, como consequência tem conquistado mais espaço. Como você analisa este momento do conto e da literatura brasileira?

RCB – Apesar de desprestigiado, em relação ao romance, nunca se publicou tantos livros de contos, almanaques e antologias. Tem muita gente escrevendo bem. Mike Jagger, numa entrevista a Caetano Veloso, disse que conhecia pelo menos dez bandas de rock, melhores do que os Rolling Stones, tocando no metrô de Nova Iorque. Imagine quantos contistas bons existem por aí, desconhecidos. Acho que temos mais contistas no Brasil do que poetas na dinastia Thang, na velha China, onde “cada homem era um poeta”, e a lista dos mais afamados chegou a 2300 nomes.

JIVM – Fale de sua incursão pelo teatro. O dramaturgo influencia na produção do contista?

RCB – Eu sempre escrevi para teatro, desde menino. Tenho muita intimidade com a carpintaria teatral. Mas escrever para teatro implica na perspectiva da encenação, do diretor, dos atores. Se não existe essa perspectiva, não se produz. É a mesma coisa com os roteiros de filme ou as novelas de TV. Você pode até criar uma súmula, mas o texto só sai mesmo, quando existe a promessa da encenação ou da filmagem. Em todas as épocas os dramaturgos escreveram para companhias e encenadores. Eu já tive várias peças encenadas e por isso escrevi bastante. Ultimamente cuido de contos e novelas. Desejo publicar o que está engavetado há anos. No meio dessa papelada, tem teatro, conto, novela, sempre em transformação, um virando noutro.

JIVM – Boa parte dos contistas acaba desembocando no romance. Vai acontecer o mesmo com você? Quais os projetos futuros?

RCB – Venho ensaiando um romance há alguns anos. Não porque ache o conto um formato de narrativa inferior. Pelo contrário. Até acho que no romance se gastam muitas palavras, há excessos dispensáveis. Mas o romance oferece a oportunidade de muitos personagens falarem, de exporem discursos diferentes. É um espaço para teses. Um diálogo de Platão não deixa de ser um romance. Essa nossa conversa, por exemplo, poderia ser parte de um romance. Você não acha? Então, vamos tentar um romance.

sábado, 8 de agosto de 2009

ROSEIRAL - JIVM - DANÇA DAS ROSAS



DANÇA DAS ROSAS


Rege a rosa impensada a duração
e, do ventre do espinho, nasce a forma
terrena da eternidade que passa.
Ah dolorosa dor que me perpassa.

Sozinha, no ar, minha vulva pensa
– rosa impensada a reger duração –
e digo aos tornozelos e aos jambos
esses incomparáveis sons que sinto.

Da régua restam passos a dançar,
os artelhos, as carnes, o infinito,
resta o canto que busca a alegria.

Com a geometria dos meus pés,
pisar na grande terra masculina
e guardar os segredos da roseira.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO


*
Pois é, não me contive, acima postei um dos poemas de meu livro Roseiral, que foi um dos vencedores do edital da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, via Fundação Pedro Calmon. Na modalidade poesia, foram contemplados três livros: Ticket Zen, de minha amiga Kátia Borges; Estudos do corpo, de Alexandre Coutinho, que ainda não conheço; e o meu Roseiral. Claro que estou satisfeito!
Bem, agora vou para Maracás, pois às 19h 30min vai ter o Projeto Uma Prosa Sobre Versos. Adivinha com quem? Com Kátia Borges! Que já deve ter chegado por lá, de Salvador. Daqui de Jequié para Maracás são quase cem quilômetros, então, vou andando, com Linda e meus filhos, Moisés e Gabriel.
Amanhã, pela manhã, faremos uma trilha na nascente do Rio Jiquiriçá. Depois do almoço, irei para a fazenda Pedra Só, meu recanto no meio da caatinga. À tarde, sairei com meus filhos, em nossas montarias, noite adentro. Às 21 horas, a lua vai aparecer no firmamento, aí a gente acende uma fogueira, senta numas cadeiras, e fica escutando o Concerto de Aranjuez, de Joaquin Rodrigo ou O Pássaro de Fogo, de Igor Stravinsky, ou algo assim, acrescido pela sinfonia dos sapos, rãs e grilos, lá da lagoa que fica em frente à casa. Os meninos costumam ficar jogando pedaços de pau na fogueira ou então pedalam em suas bicicletas. Gabrielzinho tem um velotroz – uma espécie de triciclo para bebês. É assim que vai ser o meu dia dos pais. Não poderia desejar nada melhor!!!
JIVM

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

KÁTIA BORGES - MÃE



M Ã E

Mãe, não ponha a mesa,
parece que sou visita,
parece que sou princesa.
Ah, é, sim, ela me diz,
naquele jeito terno dela,
para mim, você é princesa.

KÁTIA BORGES

*

Kátia Borges, poeta princesa, vai se apresentar, no próximo sábado, dia 8 de agosto, no projeto Uma Prosa Sobre Versos, na cidade de Maracás, Bahia. O evento é coordenado por Edmar Vieira e conta sempre com a participação especial do Grupo Concriz, que faz um belo recital com poemas do convidado (a). O Grupo Concriz é composto por 22 jovens da comunidade maracaense e dirigido pelos irmãos Marcelo Nascimento e Vitor Nascimento Sá. Kátia tem motivos de sobra para estar alegre, pois além de viajar para receber essa homenagem, seu livro inédito Ticket Zen acaba de ser um dos vencedores do edital para edição de livros da Fundação Pedro Calmon, da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. Parabéns, Kátia!

sábado, 1 de agosto de 2009

SANGUE NOVO - GEORGIO RIOS

SANGUE NOVO é uma seção que criei com o intuito de divulgar autores inéditos. A cada mês entrevistarei um jovem poeta, fazendo perguntas básicas, e publicarei três poemas de sua autoria. O primeiro é Georgio Rios.


GARRAFAS AO MAR - GEORGIO RIOS é baiano, nascido em 1981, na cidade de Riachão do Jacuípe, onde vive entre pés de algarobeiras, vendo o romper do sol e lavando os olhos nas cores das madrugadas. É graduado em Letras com espanhol pela Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs). Publicou uma coletânea de poemas em parceria com Paulo André e Thiago Lins, Só sobreviventes (Tulle, 2008). Edita o blog Modus Operandi (http://www.georgio-rios.blogspot.com/), onde publica seus poemas. Conheça mais sobre este jovem poeta que joga seus poemas ao mar, em garrafas, na esperança de que eles cheguem às mãos do leitor.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Por que ser poeta? Está mesmo preparado para carregar a cruz?

GEORGIO RIOS – Porque não consegui me livrar desta circunstância, algo de sina... Não consigo ficar sem escrever. Mesmo depois de ter me perguntado, nas horas mais calmas, se conseguiria ficar sem escrever, descobri que não consigo, a escrita reverbera, tira o sono, dita. É imperativo, escrevo, logo existo... E o caminho da poesia foi o que me coube abraçar, é o que me arrebata. Ainda que eu escreva prosa ela sobressai. Lições de RILKE.
Carregar a cruz? Estou aprendendo os varedos deste caminho com os calos nos lombos, arde, mais há possibilidades. É uma preparação ad infinitumm. Onde cada novo poema é uma marca deste caminho, marcas que contam história. E vou andando... Caminho longo a percorrer.

JIVM – O que pretende com sua poesia, mesmo sabendo que quase ninguém dá a mínima para o que os poetas escrevem?

GR – Penso, e trato minha poesia tendo como exemplo, um náufrago, que lança ao mar suas garrafas com bilhetes, buscando quem receba a mensagem. Assim, cada poema que escrevo é uma dessas garrafinhas que atiro, e há quem as leia, e assim o trabalho não é vão. A pretensão se é que eu a tenha, é que a minha poesia possa ser lida que alguém possa ter um momento de iluminação ao passear por meus versos, que alguém, algum leitor (a) aprecie o que escrevo. Mesmo insatisfeito com o que escrevo, (lembrando de Quintana), sempre desconfio que o poema ainda possa ser lapidado. Mesmo quase ninguém dando a mínima pra poesia, escrevo, e há alguns raros leitores que admiram e lêem o que encontram nestas garrafinhas... Isso justifica minha escrita.

JIVM – O que você lê? Quais são os autores e obras que são suas influências?

GR – Blogs. Muitos e quase diariamente, o de Kátia Borges, o de Katharine Funke o de Martha Galrão, o da Gerana também, e outros. Boa prosa, e poesia, que tem que ser boa também. Não me prendo a um gênero fixo. É um bom texto, eu quero ler. Mais já li até jornal que apanhava no lixo, por vicio de ler. Muito jovem ainda, peguei um exemplar de Os Sertões, tomado emprestado de uma tia minha pra fazer um trabalho do colégio, li a parte destacada para a excussão da tarefa e nunca mais entreguei o livro. O primeiro poeta que li foi Ferreira Gullar. Um livro que “roubei” na biblioteca da escola onde estudava, eram as obras completas, fiquei fascinado com a dança dos versos na página. Depois de devolver o livro entrei em contato com Drummond, Quintana, Cecília e Manoel Bandeira. Quando entrei na Universidade conheci boa parte dos prosadores que tenho na estante, Guimarães Rosa sempre me prendeu. João Cabral de Melo Neto, A Educação pela pedra é um livro definitivo em se tratando de poesia. Borges, Cortázar, Arlt, João Antonio, José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos, (fiz até papel de Fabiano em uma peça) Clarice Lispector. Antes já havia lido estes e outros, mais com a Universidade, a gama de escritores que li e que de algum modo me influenciam até hoje tive conhecimento por intermédio das aulas de Roberval Pereyr, e as de Mayrant Gallo, este me apresentou a Kafka. Sobre a literatura Portuguesa, sem dúvidas Chico Lima foi quem me deu as chaves para entrar no mundo de Pessoa, e seus heterônimos... Sem contar que foi na universidade que conheci a moçada que escreve boa literatura aqui na Bahia, e que faço questão de divulgar sempre que tenho oportunidade. Bons escritores e bons amigos a um só tempo: Roberval Pereyr, Mayrant, Sandro Ornellas, José Inácio Vieira de Melo, Gustavo Rios, Ayêska, Renata Belmonte, Carlos Barbosa, Vanessa Bufone. Tem o Ruy Espinheira Filho, li seu livro De Paixões e de Vampiros, recentemente, prata fina. Lupeu Lacerda, Wladimir Cazé, Lima Trindade, Eliana Mara Chiossi, Idmar Boaventura, Cleberton Santos, e outros que também são bons mais não dá pra botar todo mundo aqui... Tenho lido eles com freqüência, boa literatura também pode existir fora do cânone, e este batalhão tem feito bonito nas letras da Bahia. Há um pouco do que eles escrevem no que escrevo.
EU CELEBRO a mim mesmo/ E o que eu assumo você vai assumir,/ Pois cada átomo que pertence a mim pertence a você”. Walt Whitman
Livros como Folhas da Relva de onde retirei o fragmento acima, Estrela da Vida Inteira, Rosa do povo, El hacedor, Grande Sertão: veredas, Jubiabá, Poema Sujo, Pau-Brasil, O deserto dos Tártaros, e outros e outros... Estarão sempre com uma vaga garantida na cátedra da influência. Há também um poeta português que descobri a pouco, o António Ramos Rosa, dono de versos fortes.

JIVM – Quando é que vai sair da gaveta do computador? O que tem pronto? Há alguma perspectiva de publicação?

GR – Bem, os livros vão se escrevendo, e quando junto à produção de uma temporada arrumo em livro, algo que me custa muito, pois não tenho temas, escrevo atentando para o que diz Octavio Paz, sobre o instante consagrado, a poesia nasce deste instante. Recentemente fui atropelado por um doido que para não apanhar o sinal vermelho, entrou na contramão, acertando em cheio eu e minha esposa, gestante de quatro meses, felizmente nada de mal aconteceu conosco, nem com o bebê. Deste incidente nasceu o poema RISCO, que postei no blog logo depois que saí da Clínica. É assim que nascem meus livros.
Prontos, tenho dois volumes de poesia. Um chamado Depois da Chuva, que está nas mãos de uma editora do Rio de Janeiro, especializada em pequenas tiragens, que, após ler alguns poemas postados em meu blog mostrou interesse em publicar. Deve sair uma publicação.
O outro livro que tenho pronto é o Modus Operandi, que está sendo revisado por um poeta amigo meu, e que aguarda uma oportunidade de publicação. Seria bom que este livro tivesse a oportunidade de ser publicado aqui na Bahia, por editora daqui. Mais vamos aguardar. Espero que em breve ele possa sair e ser lido por leitores daqui e de outros estados que faz algum tempo já acompanham meu blog. Sigo escrevendo e escrevendo, outros livros virão com certeza, e a oportunidade de publicar também... Pelo menos acredito nisso, e trabalho para que isto aconteça.

JIVM – E o que mais dizer? Solte o verbo?

GR – Queria dizer: que agradeço a oportunidade dispensada a mim. Que sempre possa haver oportunidades para se tratar de literatura e instigar aqueles que gostam de ler. Fazer com que mais pessoas adquiram este vício que eu adquiri lendo jornais catados no lixo, e que depois passei aos livros, e comecei a escrever... Que haja a viabilização de publicação aos que escrevem, e que tem algo a dizer, estes que tem esta força criadora batendo sempre a porta. Não há escrita que seja simples, como bem diz Borges: “... Não existe na Terra uma única página, uma única palavra, que o seja, já que todas postulam o universo, cujo atributo mais notório é a complexidade”. Que na nossa Bahia haja mais espaços e mais eventos onde se possa disseminar o vírus da literatura nos jovens. Que se possa formar um público leitor e um mercado editorial sólido por estas terras da Bahia. E que surjam mais e mais oportunidades pra nós, os novos, que estamos enfrentando as “dores” desta cruz que tomamos. Pois do que foi dito, mais ficou, sem ser dito, pela impossibilidade de dominar a lembrança. Mais a escrita é feita destes espaços vazios, que devem ser preenchidos por quem nos lê. Obrigado a você José Inácio, e a todos os que lerem estas palavras. Que as lacunas possam ser preenchidas!

TRÊS POEMAS DE GEORGIO RIOS




















VENTO



Ainda não aprendi a inventar o vento
sei voar em silêncio
as asas me crescem
quando menos preciso

Sei ser este pássaro secreto
que rasga os ares

E olhar o chão sem desprezo
sem o medo

Sei
apenas correr como o tempo
que não pára, nem pretendeparar...



SOBRE O OUTONO E AS ÁRVORES


Não são os olhos das árvores
que vergam os galhos.

As folhas, e sua rebeldia,
deitam no chão,
o preço da pequena liberdade.

Nasce o outono,

o tom gris e a forma
invadem a casa e entram nos olhos

fazendo dormir ombros cansados.



MATUTANDO SOBRE O SERTÃO


Pois
o Sertão é isso:
uma vasta estrada que sai cá de dentro
e arruma num sem fim de veredas
um não sei quanto de caminhos

E é nada e tudo
saltando dos olhos
de dentro do dentro

Pra sumir e aparecer de novo
em todo lugar

Suspeito que o Sertão seja
eu e todo mundo junto
dentro das linhas desta mesma história...